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A vida é difícil. Às vezes, consegue ser muito difícil.

Fui mãe e o mundo transformou-se. Em mim nasceu a esperança, com ele nasceu o amor, a alegria. E eu como que renasci das cinzas nesse dia! O sol brilhava dentro de mim e essa luz não poderia ser apagada, era ela que iluminava toda a escuridão, era ela que disfarçava as tristezas fazendo a alegria prevalecer. E assim foi, porque por muita escuridão que nascia dentro de mim, o meu sol a iluminava logo de imediato. As lágrimas teimavam em sair, e bastava olhar para ele e não saiam mais. Prometi-lhe no dia em que nasceu a Lua, e tudo o resto também. Prometi-lhe que o protegeria sempre, e que a minha missão era fazê-lo feliz, tinha o mundo nas minhas mãos, nos meus braços e no meu coração e isso era o mais importante. Engoli tristezas, engoli sofrimento, só para proteger o meu mundo. Não consegui, não sempre.

Dias em que viu o que não devia, ouviu demasiado, mas logo tentava dar a volta, e fazer dele o menino mais feliz do mundo. Ele sorri como ninguém, ama com todas as forças, tem um coração enorme que faz inveja a muitos crescidos. 
Uma das nossas maiores preocupações enquanto mãe é proteger aquele coração puro de um mundo imundo de sentimentos negativos, proteger aquele coração de sofrimento. E o maior sofrimento não é infligido pelo mundo, é infligido por nós, quando damos um passo em falso, pois quando temos um filho, não podemos pensar só em nós, porque o que a nós nos parece um pequeno erro, aos olhos do nosso coração pode ter consequências muito grandes. 
E por aqui, deu-se um passo em falso, sem pensar em consequências sem se pensar nos corações que sofreriam. E as consequências são terríveis. Quero sorrir, quero fazê-lo sorrir, mas já nem isso consigo. O meu coração partiu-se em mil e um bocados, ou talvez bem mais do que isso, e sempre que me tento reerguer volto a cair. O coração dói e bate descompassadamente, demasiadas vezes. As lágrimas teimam em cair e não querem desaparecer, a escuridão prevalece e nem o meu sol o consegue iluminar. Fui magoada como nunca antes, e o sentimento de impotência destrói-me por dentro. Os pensamentos são negativos e os sentimentos também, mas o que me dói mais não sou eu, é ele, meu pequeno grande amor, que já mal reconhece a própria mãe. O comportamento é o primeiro a dar sinais, faz o que não deve, diz o que não deve e as birras são uma constante. Sente sintomas que não existem. Porque o seu coração não conhece esta realidade. 

Apetece-me gritar ao mundo, que teima em girar ao contrário, apetece-me gritar a ti, que me roubaste o chão que não quer voltar a aparecer. Apetece-me chorar, fazer o luto pelo meu coração que parece não bater igual. Sinto-me vazia, a culpa não é minha, mas sinto-me culpada por permitir que o melhor coração que me pertence sofra também. Eu não quero sofrer mais, quero sorrir, quero fazer o meu mundo sorrir, mas não consigo.

A violência com que a realidade me atacou foi atordoante. De repente acordei e tudo em que acreditava desapareceu, os meus sonhos, tudo! 

Tu não vês, não queres ver, não porque sejas cego nesta realidade mas porque és egoísta, egocêntrico e cheio de razões que nenhuma razão conhece. Enganaste-me de tantas maneiras, destruíste o meu mundo e o mundo do meu mundo, do nosso mundo, que tu já não mereces. O sofrimento para ti não é nada, desde que te sintas bem que se dane tudo o resto. Eu preocupo-me com o sorriso que não é tão mais aberto agora, tu não queres saber, nunca quiseste. Dói-me saber que o meu mundo também te pertence, a ti, que não vês mais nada à frente além de ti mesmo. O meu coração partiu-se em mil bocadinhos, bem mais do que isso e agora passo os dias a apanhar cacos, a tentar coloca-los no sítio, sem êxito algum, tento que mais nenhum coração seja partido. Tornaste-me uma sombra daquilo que fui, e sinto me como se nunca tivesse sido nada. 

Dói saber que fui enganada e traída, dói saber que não sou nada, mas dói mais tentar erguer a cabeça e seguir em frente, num mundo que não está preparado para me conhecer, e nem eu preparada para o conhecer a ele. Dói olhar para o meu pequeno grande amor e ver o sofrimento reflectido no seu olhar, aquele olhar doce que agora sofre sem eu conseguir fazer nada!! 

Pior do que ser uma mulher traída, é ser uma mãe cujo pai a traiu. A realidade não tem escrúpulos tal como tu, a realidade todos os dias me atira à cara que sou menos mulher, mas nunca me permitirei ser menos mãe, isso define-me desde que ouvi aquele coração bater, o meu coração. Mães, pais, parem e reflictam, um coração de uma criança não merece ter dor, apenas amor e todos os passos em falso que dão se reflectem neles, e a dor consome qualquer alma, e nenhuma alma merece ser enganada e traída. 
Somos animais, mas não irracionais, temos a opção da escolha, escolham pelo melhor. E tu, que ainda te ris do meu sofrimento, que me olhas como se nada fosse, como se o reflexo da minha dor fosse um teatro, lembra-te que não sou só mulher, sou a mãe do teu filho, a quem privas por agora ter a mãe por completo. Sou uma sombra, mas tenho em mim, algures, uma Fénix que um dia se reerguerá das cinzas e a quem mais ninguém há-de voltar a destruir.


Autora Anónima