0

A Ana Rita e as outras

Há tempos, a Ana Rita Clara causou indignação nas redes sociais depois de ter escrito um post no seu blogue afirmando que tudo é possível para as novas mães e oferecendo algumas dicas para o alcançar. Choveram comentários em desacordo (no mínimo) e muito se disse sobre as “facilidades” que a apresentadora tem para o conseguir.
A Carolina Patrocínio tem duas filhas. Nas duas gravidezes foi alvo de comentários (alguns muito maldosos) sobre a sua forma física, a atenção dada ao desporto e muito se questionou sobre as suas prioridades e ajudas na maternidade.
A Carolina Deslandes tem dois filhos. Há pouco tempo publicou uma fotografia do seu corpo após estas duas gravidezes que aconteceram no espaço de 11 meses. As críticas que se seguiram foram duras, lembrando a cantora de que há mais vida para além da maternidade e que o desleixo a que se dotou é inconcebível.
A Ana Rita e as Carolinas ilustram bem uma das maiores dificuldades da maternidade: a pressão a que as mães estão constantemente sujeitas. A Ana Rita e as Carolinas são figuras públicas e por isso mais sujeitas ao escrutínio generalizado mas, em boa verdade, todas as mães sofrem estas pressões. Se voltam à forma física pouco tempo depois da gravidez é porque não se preocupam com os filhos; se demoram um ano para regressar ao peso antigo é porque são desleixadas e estão a oferecer aos filhos um péssimo exemplo de amor-próprio.
Nesta equação não há forma de ganhar. Seja nas revistas ou nos círculos de amigos, na família, no local de trabalho, a pressão está lá. Em boa verdade, estes casos díspares revelam que não é tanto o estar magra ou gorda que importa, haverá sempre alguém que se achará no direito de criticar a situação da nova mãe, independentemente dos desafios que esta esteja a enfrentar. Algumas mães não têm condições financeiras para voltar ao ginásio e pagar a uma ama para ficar com os filhos, outras não têm família por perto para dar uma ajuda e outras estão tão esgotadas que não têm sequer energia para pensar nisso. Acima de tudo, todas as mães enfrentam uma nova realidade: a descoberta da sua nova identidade, que pode ser um processo calmo e pacífico ou doloroso e confuso. Porque quando nasce um bebé, nasce também uma mãe. E tendo em conta este período de auto-descoberta e exploração que todas, invariavelmente, vivemos, seria de esperar mais solidariedade entre as mães. Cada uma faz o melhor que pode com os recursos que tem.
A sabedoria popular diz-nos que só quem está no convento, sabe o que lá vai dentro. Este é um bom mote e um óptimo ponto de partida para que sejamos mais empáticas e tolerantes umas com as outras. E para que deixemos de ver a situação das outras como uma afronta à nossa própria realidade. Each to their own, como dizem os ingleses.