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Querido Quico | Carta ao meu filho com Paralisia Cerebral

Nem sempre o tempo me permite dizer tudo o que gostaria de te dizer todos os dias. Faço-o por escrito para que eu te leia quando estivemos juntinhos e agarradinhos no sofá (como gostamos de fazer) sem ninguém a incomodar. Assim alguém também te pode ler sempre que quiseres, e pensas em mim, como eu estou sempre a pensar em ti.
Hoje foi o teu último dia da tua primeira colónia de férias. Uma colónia de férias, inclusiva, com crianças com e sem deficiência.

Tenho que te dar os parabéns. Sem quase te mexeres ou falares, fizeste um brilharete na apresentação final! As professoras e as colegas dançaram contigo, fizeram uma dança adaptada. Gostei especialmente da parte em que te agarraram e rolaram no chão. Como não te mexes, a professora deitou-se no chão de barriga para cima e deitou-te em cima dela e rebolaram. Parecias muito feliz. Sei que estavas feliz, pela forma como esboças aquele sorriso tão especial.

Também percebi que na segunda dança não querias o chapéu de pirata. Só olhavas para trás e os teus braços faziam aqueles movimentos tipo espada, mas sem perceber como fazer o movimento correcto para levar a mão ao chapéu. Mas tinha que ser, essa era a coreografia.

Na verdade, sei que passaste uma semana muito feliz.

No primeiro dia, as professoras viram logo que tu não querias o atelier dos instrumentos. Não é comum "estranhos" entenderem uma criança que não fala. Rabujaste e acabaste onde querias: na dança. Isso é que é ter opinião! Desculpa, para a próxima vou ter que te perguntar primeiro. Já tens 9 anos. Não falas mas sabes o que queres.

Depois, todos os dias desta semana chegaste a casa sorridente. Não se podia perguntar nada sobre o dia que eram só sorrisos! Tenho pena que não me consigas contar. Sei que gostavas muito de me contar as fofoquices (sei que adoras quando falamos da vizinha...).

Estiveste integrado num centro residencial e de apoio a pessoas mais velhas com deficiências graves.

Olhei à volta e senti-me triste por ver adultos e idosos em cadeiras de rodas e pensei que essas eram as suas pernas, e como se sentiriam tristes por em toda as suas vidas nunca terem conseguido andar.

Mas depois lembrei-me de um amigo que me diz que tu não te importas de ser assim. E talvez seja verdade, nós queremos que sejas igual aos outros, andes, corras e fales. Mas tu és assim. Na verdade és super especial por seres assim.

Da tua mãe,
Sara