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Os muros da Infância

A infância está rodeada de muros. Se não está, deveria estar. Muros de proteção. Muros de contenção. Muros de despreocupação.
À medida que vão crescendo, ou os muros vão sendo derrubados ou as próprias crianças, porque crescem e vão ficando mais altas, vão vendo para lá dos muros, elas vão sentindo e cheirando o mundo que existe do outro lado.
Sei pela minha experiência profissional que não é sempre assim. Não é mesmo sempre assim. E não é sempre assim vezes demais. Com muita frequência mesmo. Para lá do imaginável ou do que poderíamos desejar que fosse.
Por isso, e até eu poder, vou erguer muros de proteção, contenção e despreocupação à volta das minhas filhas. Queria, queria mesmo, mas queria mesmo muito, que esses muros fossem tão altos que, de tão altos, as protegessem para sempre.
Mas este é o meu lado de mãe a falar. Sou só eu e o meu coração. Sem a razão. Só nós. Tão somente nós.
E a razão entra na minha vida. E alcança os muros. E faz-me perceber que os muros devem, devagarinho, ser derrubados. Com a minha orientação. Com o meu apoio. Mas devem ser derrubados. Porque também faz parte do seu crescimento sentir e cheirar o mundo que existe do outro lado.
E por estes dias houve um dia em que me vi obrigada a derrubar um pouco do muro da infância. E foi com lágrimas nos olhos que o fiz. E as minhas lágrimas nasceram, porque o que a minha boca lhes contou provocou lágrimas nos seus olhos. Nos seus lindos olhos.
Chegou a altura de lhes contar que o nosso animal de estimação respirou pela última vez. Demorámos algum tempo a dar-lhes a notícia. E fizemo-lo porque ponderámos manter os muros intactos. Ponderámos afastá-las desta desilusão. Manter longe a tristeza, por mais algum tempo. Mas decidimos que havia chegado a altura.
Falar sobre a morte é sempre difícil. Com crianças torna-se ainda mais desconfortável. Queremos afastá-las da ideia assustadora de que se deixará de ver e estar com alguém para sempre.
Mas ela existe. Acontece diariamente. Perto de nós. Longe de nós. Acontece. E aconteceu. E as nossas crianças e meninas choraram. E limparam as lágrimas. E digeriram a notícia. E pensaram. E questionaram-se. E avançaram. E ainda bem que avançaram.


Porque quando nós, Pais, sentimos que eles avançam, o nosso coração fica mais leve e ficamos com mais certezas de que, por vezes, os muros devem ser derrubados, devagarinho, na nossa presença e com todo o nosso colo.