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Oh tempo dá-me um tempo!


São 9 da manhã, acabei de dar a primeira mamada do dia! Levanto-me estrategicamente e saio do quarto em pontas dos pés para a bebé não acordar!
A Matilde dorme, mas não no berço! Dorme no lugar que há 3 horas era do pai. Dorme profundamente! Olho para trás antes de sair do quarto e vejo um pequeno sorriso, será um sonho? Com o que é que os bebés sonham?
Saio e vou para a cozinha, como o meu iogurte natural com xarope de agave, mirtilos e aveia (há que voltar aos hábitos saudáveis), enquanto vejo as últimas notícias na televisão. Às vezes arrependo-me dessa decisão… apetece-me continuar na ignorância e ser muito mais feliz neste meu mundo imaginário onde só existe amor. Antes de sair da cozinha, olho para cima do micro ondas e reparo no calendário que ainda está no mês de maio. Mudo a “página” e tenho um momento de reflexão. Já estamos a meio do ano.
Volto num ápice ao quarto. Deito-me ao lado da minha mais que tudo e peço para o tempo parar. Já passaram quase 4 meses desde que nasceu, não os notei passar!
Oh tempo não tenhas pressa, quero que os dias e as noites não passem, quero ter tempo para contar cada fio de cabelo da Matilde, quero ter tempo para não perder um sorriso, um olhar, um choro, um agarrar de dedo, um palrar, uma expressão, quero ter tempo para me perder nos seus olhos enquanto estou a dar de mamar. Ai a amamentação! Esse momento só nosso, que faço questão que seja só nosso!
Oh tempo vai com calma, daqui a pouco mais de um mês eu regresso ao trabalho e são tantas as coisas que vou perder! Esse regresso ingrato depois de uma licença de 5 meses, mesmo quando é aconselhado pela OMS amamentação exclusiva até aos 6. E sim, 5 meses porque os pais também merecem momentos de exclusividade com os filhos. Esse regresso forçado que para além de mim, grande parte das mães em Portugal são obrigadas a fazer, pois receber 25% do ordenado não é uma opção viável. Esse triste regresso que obriga à separação de mães e filhos, quando é nessa precisa altura que eles se começam a aperceber dessa mesma separação.

Oh tempo por favor dá-me um tempo! Quero aproveitar cada nano segundo deste último mês e meio que me resta de exclusividade com a minha bebé. Quero ter a calma necessária para não me esquecer de nada, para registar tudo, para acompanhar as descobertas da Matilde, do próprio corpo, das vozes, das cores, das pessoas, das texturas, dos objetos.


Oh tempo, eu nem sou de pedinchar mas peço-te de coração, dá-me mais tempo para estar com a minha filha porque, se dizem que nascemos para alguma coisa, eu nasci para ser mãe desta bochechuda e preciso de todo o tempo do mundo para assimilar este estado de felicidade extrema!