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O pesadelo da Anorexia Fisiológica dos 2 anos

A minha filha Alice é a chamada Miss esquisitinha. Nunca foi grande garfo mas passou um período especialmente difícil, poucos meses antes dos seus 2 anos.
Tinha deixado de comer em termos.
Primeiro deixámos estar, a um momento dado ela haveria de sentir fome e comer em condições. Mas as semanas foram passando e sem ser umas garfadas de massa ou arroz, qualquer coisa de fruta e iogurtes, a Alice recusava-se a comer. Sopa que sempre comeu tão bem, nada. Até a sua adorada Cerelac comia a meio gaz. A nossa preocupação começou a crescer. A única coisa que nos deixava (e deixa ainda) relativamente descansados era o facto que na creche comia bem a sopa.
Quando fomos passar uns dias a Lisboa, pensei para mim, que os ares diferentes lhe iriam fazer bem e quiçá lhe abrir o apetite. Enganei-me e muito. Foi um pesadelo. A nossa caracoleta em 9 dias (NOVE DIAS) comeu apenas um pote de fruta, algum pão e bebeu o seu biberão de leite noturno. Quem é Mãe ou lida com crianças, sabe a que ponto isso nos deixa assustadas. Fiz de tudo, várias refeições diferentes no mesmo dia, tudo coisas que ela supostamente gostava. Esparguete bolonhesa, arroz com frango, todas as sopas possíveis e imagináveis, e nada!
A minha filha simplesmente tinha deixado de comer.
Após regressarmos ao Norte, pensei que ao chegar a casa no ambiente dela, fosse comer mais alguma coisa, mas nada. Tentei forçar. Voou sopa por todos os lados. Sopa nos olhos, nos cabelos, no nariz. Arroz espalhado na sala toda. A Alice em lágrimas e eu em lágrimas estava.
"Porquê? Porque não comes, meu bebé? Olha tão bom a papinha! A mana pápa! O papá também! Come, minha pequenina. Come por favor, pela mamã, come, minha flor. Peço-te meu amor, come."
As minhas súplicas não surtiram efeito. O meu coração, não estava a aguentar mais. Quase dois meses nisto. O que é que se estaria a passar com a nossa filha? Em último recurso fomos para o hospital. Saímos de casa como dois loucos, desesperados, com o coração do tamanho de uma ervilha. Já imaginava uma bicheza gigante a consumir a minha filha do interior. Olhei para o meu marido, estava com cara fechada, coisa muito rara. Queria chegar ao Hospital o mais rápido possível. Queria voar! Precisávamos saber o que se passava com a nossa pequenina. De repente mais nada fazia sentido. Segurei na mão da Alice durante o caminho todo "O que tens minha Alice? Não gostas da pápa da mamã, meu amor? Porque não queres comer, meu doce?"
Visto daqui parece uma reação exagerada, afinal é só apenas uma criança que não quer comer. Vai passar. Mas coração de Mãe não é assim. Coração de Mãe preocupa-se, quer respostas. Não comer nada ou quase nada durante tantos e tantos dias, não é normal. Não pode ser normal.
Chegando à sala de triagem, sinto-me um bocado tola, porque afinal a Alice não caiu, não tem febre, não tem "doença" visível ou pelo menos palpável o suficiente para ir às urgências. Mal entro na sala, o assistente exclama “Aaaah mas que caracóis e bochechas maravilhosas! Não passas fome Alice!”
Bem... O que dizer após uma entrada destas?
Entre risos e nervosismo explico-me, meia atrapalhada e envergonhada ao enfermeiro por não ter dados concretos salvo a minha aflição e medos de Mãe. "A minha filha não come em termos há mais de 1mês. A minha filha recusa tudo, salvo o leite e a água. Ajude-me por favor! Não tenho medição de febre para lhe apresentar, não tenho episódios de vómitos, nem quedas, nem de noites infernais. Tenho apenas esta caracoleta que foge literalmente de um prato de comida."
Com um sorriso meigo e compreensivo (OBRIGADA, HOSPITAL DE SÃO JOÃO), dirigiram-me ao médico de serviço. "Respire, Mãe. Vamos ver o que se passa com estes caracóis saltitões, a Mãe não sai daqui sem diagnóstico, não se preocupe."
Diagnóstico! Era tudo o que eu queria! Uma explicação, um nome, algo a que me pudesse agarrar. Muito rapidamente, pesaram a Alice, tiraram febre e fizeram análises à urina. Tudo numa perfeita normalidade. A Alice não tinha perdido peso desde a última consulta na pediatra, engordou umas 500gr. Urina normal. Zero falta de vitaminas. Zero doenças desde Maio. Uma menina em perfeita saúde, e um alívio, um maravilhoso alívio neste coração de Mãe. Mas afinal o que tinha a minha filha?
Chama-se Anorexia fisiológica dos 2 anos. Nome muito feio e assustador para algo até bastante comum.
Por volta dos 12 meses (até completar os 2 anos) as crianças passam a comer menos. Isto deve-se ao facto do crescimento a partir do ano de idade ser inferior aos primeiros 12 meses de vida. As crianças passam a ter menos necessidades alimentares. Deste modo acabam por comer menos. Não estão a "enjoar" a comida. Simplesmente não têm fome. Trata-se de uma etapa, tal como muitas outras (começar a gatinhar, andar, palrar, falar etc...). É preciso conhecê-la para não causar grande preocupação, ter bastante calma porque vai passar.
Sim, vai passar. Mas como lidar com isto até "passar"? Bem, aqui em casa, metemos o coração ao largo. Deixámos comer o que quis do prato. Todos os dias servi-lhe as refeições como antes. Ás vezes ela picava alguma coisa, outras nem por isso. Hora do lanche igual, tudo como antes. Deixei de alterar o menu para lhe agradar. E sabem que mais? Após quase 3 meses, a Alice voltou a comer a minha sopa. Voltou a comer arroz e massa como se não houvesse amanhã. Continua a torcer o nariz ao peixe e à carne.
Mas vai passar. Está a passar.
Chorei de alegria quando a Alice comeu a sopa toda. Nem respirei, a cada colherada, e apesar das lágrimas de felicidade me escorrerem pelo rosto abaixo, tentei fazer de conta que era normalíssimo ela estar a comer, tal era o meu medo que ela parasse. Se tudo isto é assim tão fácil como um simples “Oh! Vai passar!” ou um “São fases!”? Não. Meu Deus, como não é! É um momento de muita aflição, de medo e angústia muito grande. Tirou-me o sono. Quantas vezes ao adormecê-la chorei a olhar para ela, e perguntei-me o que se passava naquele corpinho com os refegos mais doces do mundo. Alguns poderão achar que a minha reação foi exagerada, mas eu sou assim. Não faço tempestades em copos de água, não me impressiono facilmente, não me preocupo por demais. Mas confesso-me Mãe galinha. Confesso-me frágil. Muito frágil quando se trata das minhas filhas. Da minha família.
Se posso dar um conselho às mamãs que possam vir/estão a passar pelo mesmo: Reajam como o vosso coração mandar. Sim, vai passar. Sim, é uma fase. Mas vocês têm todo o direito do mundo de vos preocupar, de terem medos. E de irem ao hospital se for isso o que o vosso sentido de Mãe vos gritar.
Mas acreditem que as palavras-chave nisto tudo são a PACIÊNCIA, toneladas dela e muito, mas muito, muito AMOR. Só e apenas.