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O conflito é o pai de tudo

Pedaços de mim...abril de 2011

Se a emoção ou o sentimento são o que normalmente está no desenvolvimento da neurose,  e a angústia e/ou a culpa, então sou efetivamente neurótica e já tenho passado por fases muito mazinhas!!!
Sendo a neurose uma patologia de contacto, confesso que acho que todos os seres ditos “normais” serão neuróticos em algum ponto da sua vida. Se há gente que não o é, então devem ser extra-terrestres! 
Antes, ficava sempre com aquela sensação de, ao início, nos contactos com pessoas que me dizem algo em especial, me sentir tão vulnerável ou envergonhada que me diminuía ou me escondia não me afirmando. Mas penso que é uma sensação que ficava de um comportamento que tinha impresso como padrão, porque na verdade estava sempre presente de algum modo. Quando me dava conta deste movimento, inicialmente, sentia o corpo mais tenso. Ao diminuir a fronteira de contacto eliminando as barreiras, podia ser assustador, criando medos e ansiedades, mas permitia-me chegar perto da perfeita osmose entre duas pessoas, permitia que cada um visse o outro verdadeiramente. O contacto físico permite transmitir e deixar fluir as emoções. E cada vez mais quero estar nele de forma sentida e verdadeira.
Em terapia, comecei a tomar cada vez mais consciência das minhas resistências e bloqueios. Mas na verdade, antes de começar esse processo já tinha bastante consciência deles, mas estava num completo IMPASSE! Já me tinha dado conta dos bloqueios e das resistências mas não sabia como alterar os comportamentos. Sentia-me completamente presa, e algo frustrada e angustiada com a situação. O impasse foi-se dissolvendo, mas às vezes era como se essa memória estivesse tão presente que ainda me fazia sentir de alguma forma impotente. Sei que tenho viajado numa constante mudança e que estou a agir de acordo com essa mudança, de forma mais liberta e espontânea. Sinto até que a maior parte das vezes me via de uma forma mais “negra” e complicada do que realmente era, pois as memórias boas da Catarina espontânea, brincalhona e dada ao contacto existem porque fazem parte de mim. O que é certo é que, em alguma altura, algo despoletou o bloqueio que havia no contacto com os outros, devido ao meu próprio desconforto, e isso de algum modo me serviu, me protegeu.

Em Gestalt a neurose surge na relação. Quando o conflito é internalizado, sem exteriorização da raiva, surge o padrão.

Só posso dizer que até à minha adolescência tardia, internalizei os conflitos existentes com os meus familiares e amigos. Não exteriorizava a raiva da forma necessária e ela foi-se acumulando cá dentro, fechando-me, afastando-me, tornando-me uma pessoa angustiada, zangada, que se auto-repremia e limitava, gerando tristeza e solidão. Esperando dos outros aquilo que eu própria já não conseguia dar. Aparentemente tudo era perfeito, saudável, boa aluna, aproveitando as oportunidades que surgiam. Sempre responsável, mas aquém na espontaneidade e na intervenção ativa. Fui trabalhando o perdão, a mim própria e aos outros, para conseguir ir abrindo o coração, sem raiva e sem zangas. Conseguir estar bem mesmo que os outros não estejam. Ser capaz de manter o meu equilíbrio. E ser verdadeira comigo própria dando real resposta às minhas necessidades, sem medos nem receios.

O conflito é o pai de tudo. O conflito é gerador do contacto e a agressividade é essencial à vida. Ao invadires o espaço de outro, crias o contacto, e não quer dizer que tenha de haver violência ou agressividade.

Tinha dificuldade em criar limites e, principalmente, com as pessoas mais próximas, familiares e amigos. Tinha dificuldade numa abordagem confrontativa. Medo do conflito e da ruptura da relação. Ao trabalhar o valor próprio, o auto-merecimento, a tomada de consciência e desdramatização das situações tudo passa a acontecer de forma mais equilibrada, sem defesas, sem ataques e com uma grande dose de bom senso e respeito mútuo.