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No compasso da vida

O Jaime entrou para a escola recentemente. Entrou para a escola na meta dos 3 anos, a vinte dias de os celebrar. Até então, estivemos os dois em casa, todos os dias, juntos nas brincadeiras e na celebração diária da vida. Quase três anos que passaram a correr, com a velocidade de um “Partida, largada, fugida...!”, que me transformaram para sempre e me foram mostrando o caminho, devagar, um dia de cada vez, sem pressas.
Tive esse privilégio, esse enorme, gigante, elitista privilégio, de poder optar por ficar com o meu filho em casa durante os nossos primeiros três anos juntos e não tenho dúvidas de que, à semelhança do que se pratica em vários países do Norte da Europa, esta deveria ser uma opção prevista na lei de protecção à parentalidade (e à infância, e à saúde pública...) para todas as mulheres ou homens que também são mães ou pais.

Dizem-me: “Não temos petróleo como esses países. Todos têm de contribuir para a economia nacional”. E eu penso, que visão tão triste e redutora daquilo que é a vida, daquilo que é até a economia, a produtividade e a gestão e sustentabilidade de recursos. Que visão tão, comprovadamente, errada sobre o que é o melhor para a sociedade em todas as suas dimensões. O sistema está montado de forma a que a “máquina” seja alimentada num continum desigual desde a origem. Uma máquina devoradora que engole os nossos dias, o nosso tempo, as nossas vidas, que nos engole. E a máquina não nos “cospe” facilmente, dispensando-nos desse continum. Tem de ser alimentada, custe o que custar. E custa muito... muitas vidas, que passam e se esgotam no compasso acelerado da fome da máquina que nos ceifa momentos, experiências e emoções.
O preço a pagar é alto. Na verdade, é imensurável. Afinal, qual é o preço do nosso tempo, esse bem tão valioso e que não volta? Qual é o preço do nosso tempo com os nossos filhos? O preço do tempo em que eles crescem e avançam em direcções que tantas vezes desconhecemos? Qual é o preço da felicidade?

Dizem-me: “Ok, mas mas nem todos/as os pais/mães têm essa disponibilidade emocional (?) para ficar com os filhos a tempo inteiro e de “gastar” tempo (que não têm, na verdade) com os filhos. Não serve a todos.” Ah, ok! Reconhece-se, então, a inadaptação de alguns a este modelo, mas não se reconhece a inadaptação de muitos (e são tantos) ao modelo vigente que não dá opção de escolha. Ao modelo que cria estruturas e respostas para que as mães deixem os seus filhos aos 5 meses para irem alimentar a máquina como se nada nas suas vidas tivesse mudado. Basta saber um pouco de fisiologia, psicologia, antropologia, … para perceber que uma cria de 5 meses não está preparada para ficar sem a mãe. Não foi pensada para isso. E mexer com a Natureza é sempre um risco cujo impacto se revela, mais cedo ou mais tarde.

Eu e o Jaime fomos uns privilegiados por podermos ficar juntos durante quase três anos inteirinhos, mas nem deveríamos ser os únicos nem isto deveria ser um privilégio de poucos, mas sim um direito de muitos. A licença que tirei está prevista na lei. Sim, está... mas é sem vencimento. Não se recebe nada. Zero. É uma lei inclusiva? Não, é uma lei profundamente elitista na sua génese. E as leis não deveriam ser elitistas em democracia.
A actual licença de maternidade de 5 meses fica muito aquém das reais necessidades das mães e dos bebés, fica aquém das recomendações da OMS (no sentido em que não promove o sucesso da amamentação exclusiva até aos 6 meses do bebé) e, em termos prospectivos, fica aquém dos critérios económicos e dos orçamentos para a saúde pública porque as evidências são claras quando identificam, em estudos epidemológicos, uma correlação directa entre a entrada precoce na creche, o aleitamento artificial (potenciado, muitas vezes, pelo regresso da mãe ao mercado de trabalho) e uma maior incidência de doenças nos bebés; bem como uma baixa na taxa de produtividade destas mães que se deparam com a necessidade de deixar os seus bebés tão precocemente aos cuidados de terceiros.


Mudar o estado das coisas só depende de nós. Baixar os braços, largando os nossos filhos durante 6, 7, 8 horas por dia desde tenra idade é um absurdo que tem provas dadas. Mudar o mundo é possível quando se quer e quando todos nos unimos por um mesmo objectivo. Política é o que fazemos todos os dias. Façamos política no sentido da mudança por eles, por nós e pelo futuro.