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Menos é mais... muito mais!

As actividades extra-curriculares são um tema que sempre me interessou pelas expectativas que levanta acerca do desenvolvimento de competências e habilidades das crianças. No entanto, entre um número infinito de actividades que hoje existem e os benefícios que podem trazer para o equilíbrio familiar, a minha opinião é a de que menos é mais!

O meu filho G, como quase todas as crianças, teve durante anos actividades extra-curriculares. Desde cedo que ele gosta de actividade física e mostrou aptidão para determinados desportos. O pai foi, na sua juventude, professor de judo e na altura de escolher uma actividade, a força do percurso familiar falou mais alto.
Aos 4 anos ele, o G, iniciou-se no judo, no clube onde já o pai dele tinha feito o seu trajecto desportivo. Aos 4 anos ainda não estava a ter aulas no primeiro ciclo e por isso os dias eram leves. Até aqui tudo era harmonioso. O dia-a-dia de uma criança na creche é suave, com actividades específicas mas onde se brinca bastante, que na minha opinião, é aquilo que as crianças devem fazer – brincar bastante! Uma actividade extra, após o horário da creche é uma forma da criança conhecer outras crianças, desenvolver aptidões e brincar mais um pouco mas tudo muda quando se entra no primeiro ciclo. Os currículos escolares são bastante exigentes, com matérias que têm de ser dadas à velocidade da luz para se cumprir o calendário escolar, horários apertados, testes, mini testes, avaliações intercalares, trabalhos de casa e tudo o que faz parte do mundo do ensino, nos dias de hoje (tenho uma opinião muito particular acerca do ensino, em Portugal, mas isso será assunto para uma outra oportunidade). Com a entrada no 1º ano, os meninos juntam-se, nos recreios, para brincar à bola. É quase um clássico! O meu G começou a mostrar interesse em futebol bastante tarde, comparando com os meninos da sua idade, mas com a entrada na escola esse interesse aumentou ao ponto de manisfestar, várias vezes, a vontade de treinar num clube de futebol, com treinador e uma equipa. Fui pensando no assunto de acrescentar mais uma actividade extra ao seu dia-a-dia, já preenchido o bastante com ginástica, natação e judo, e em conversa com o pai, decidimos colocar num clube de futebol, para poder então saber se gostaria de praticar este desporto pela vida fora. Este tempo de reflexão e tomada de decisão demorou 1 ano e a entrada no clube só aconteceu no 2º ano. 
Não estava totalmente em paz com a ideia de tanta actividade semanal, mas cedi à vontade do meu filho treinar futebol de forma mais profissional. Nesta altura, o dia-a-dia familiar ficou ainda mais preenchido, com actividades fora de casa e horários exigentes. Pais num ‘vai buscar-vai levar’ constante, incluindo fins-de-semana, pois os torneios acontecem, frequentemente, ao Sábado. 

Em resumo, o G tinha actividades desportivas de Segunda a Sábado, acumulando com a natação e ginástica que faz parte integrante da actividade desportiva do currículo escolar. Torneios, 1º lugar em todos os torneios de judo, alegrias, orgulho da família pelos resultados, treinadores encantados e muitas emoções à volta das performances bem sucedidas do G. A vida foi correndo mas o cansaço começou a instalar-se... Passámos muito do tempo familiar na rua, entre clubes e treinos e quando chegávamos a casa tudo era feito contra-relógio: trabalhos de casa, banhos, jantar e pouco sobrava para apenas relaxar. Todo o ‘estar’ em família, com serenidade e tempo, começou a perder a magia por ser tão reduzido e cheio de pressão. Em simultâneo, o filhote começou a dar sinais de não estar bem. A professora chamou-me ao colégio para perguntar se tinha havido alguma alteração na rotina familiar porque observava que o meu filho andava instável. Em casa, ao final do dia, havia choro e lamurias, visivelmente manifestações de tensão acumulada. 

Determinado dia, num desses momentos de choro ele verbaliza que só tinha o Domingo para dormir e que estava mesmo cansado. 
Tive segundos em que parece que o tempo parou e fez-se luz, nesse momento! Decidi, sem qualquer tipo de incerteza, que o meu filho iria sair de todas as actividades extra escolares. Todas mesmo! Parece muito radical mas foi o certo, sem qualquer dúvida. Soube que falando com o pai, ele seria da mesma opinião e tomaria a mesma posição. Conversei com o G. Disse-lhe que ele estava a sentir um grande cansaço e que precisava descansar durante um ano, para o seu corpo equilibrar-se e ele sentir-se mais calmo e tranquilo. Decisão certa! Decisão que mudou, positivamente, a estrutura do dia-a-dia e que trouxe muito mais harmonia e bem-estar.
Fui contactada várias vezes, ao longo deste tempo, pelo mestre de judo e pelo treinador de futebol, no sentido de repensar melhor a minha (nossa, enquanto pais) decisão pois o nosso filho tem talento. É tentador ouvir que os nossos filhos são brilhantes em determinada área, é mesmo muito tentador, mas nem por um segundo achei que tinha tomado a decisão errada. Apesar de ser “mel para os ouvidos” de todos os pais ouvir que os nossos filhos são especiais, a decisão foi tomada e está a ser mantida, actualmente. O G nunca me falou em voltar para as suas actividades, nunca mesmo, o que me faz pensar que ele também sente que o certo é estar a aproveitar o seu tempo de forma mais serena, menos competitiva e relaxada. Várias pessoas foram dizendo, ao longo desta pausa, que o G tem estado mais bem-disposto e calmo. Fico feliz por isso!

Menos é mais:
- menos actividade, menos competitividade, menos correria, menos stress, menos pressão, menos choro.
- mais tempo em família, mais serenidade, mais equilíbrio e bem-estar, mais abraços, mais brincadeira, mais criança, mais sorrisos.