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Falamos demais?




A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós.” Rubem Alves.

Pode parecer contraditório, que, por vezes, criar conexão se consiga com o silêncio, mas não é.

Se o teu silêncio comunicar “estou aqui — não para despejar em ti as minhas feridas e ansiedades mas para te receber como és e como estás”.

Se o teu silêncio não for ausência mas antes um templo, vazio de medos e preocupações que acolhe, seguro, os medos e preocupações do outro.

Se o teu silêncio for respeito pelo tempo do outro, pelas vontades e emoções do outro é a forma mais poderosa de te ligares. De dizeres “Eu quero ouvir a tua música. O palco é teu.”

E, muitas vezes, não é isto que fazemos, ao vestir o nosso “disfarce” de pais e mães, antes assumimos o papel principal, no show dos dias.

Repetimos, muitas vezes de cor, as falas estudadas de um guião que o nosso subconsciente, os hábitos, o que disseram que seria suposto, nos ditam.

Despejamos, num ruído chato, desde manhã até à noite, ordens e comandos, inquirimos e respondemos com rapidez e eficácia, desempenhando o nosso “papel”. Achando que se fizermos muito, se dissermos muito, se ensinarmos muito, se perguntarmos muito eles estarão connosco.

Até que, um dia (muitas vezes só quando a adolescência espreita), percebemos que era uma ficção.

Que, quando as luzes se apagam e a cortina cerra, cada um habita mundos separados, distantes, desligados.

Experimenta, hoje. Ao levá-los a brincar no parque ou a passear, não fujas com o teu pensamento para longe, mas observa apenas.

Ou nas manhãs de fim de semana, desliga o cronómetro das perguntas e saboreia o que acontece. Ou durante a próxima semana, ao recebê-los da escola, abre a porta de casa e abre o teu coração mas fecha a boca — não digas nada. Espera que eles digam, que eles queiram partilhar.

O silêncio é espaço — para aceitar, para confiar, para não julgar, para observar, para esperar, para descansar, para esquecer. E, às vezes — a maior parte das vezes -, é só mesmo isto que é preciso para conseguirmos ouvir, juntos, a música doce dos dias.