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Confiar na Mulher que sou

Não consigo ter a certeza que parte de mim se mostra mais vulnerável e, nessa vulnerabilidade, devolve ao mundo uma incerteza dos passos que dou. É certo que  fui mãe tarde, que escolhi deixar de trabalhar, que tenho quase 40 anos, e que estou separada. Tenho tudo para ser fácil parecer uma bomba prestes a explodir... ou um bebé que precisa de colo. 

Mas confesso-vos que às vezes sinto que tudo começa por ser mulher: as minhas escolhas parecem sempre ter de passar num escrutínio de aceitação social, e sempre que fujam às normas que dizem "esta mulher irá sobreviver" acendem de imediato alertas vermelhos que deixam tudo de sobreaviso e em estado de alerta: atenção, ela pode não conseguir.

Sinto-o, talvez, desde pequena: ter boas notas, vestir-me bem e gostar de estudar são os barómetros de que uma menina está no bom caminho. Praticar um desporto feminino, ter amigos e falar baixinho acrescentam ao que parecem ser características que nos garantem a sobrevivência num mundo maioritariamente masculino.

Demorei anos a perceber o que era a minha verdadeira voz... e confesso-vos que mesmo hoje, ainda nem sempre consigo. A primeira coisa que a minha avó me disse quando soube que estava grávida foi: "ai filha, no que te foste meter!"

Às vezes penso que a humanidade é um molho de corações aos saltos, em vez de um conjunto de cérebros pensantes: juro que não sei se sabemos para onde vamos! Nós mulheres, já queimámos soutiens, já conseguimos ter direito ao voto, já podemos estudar e até estudamos mais que os homens, mas continuamos sem os mesmos cargos e muito menos salários.

Nós mulheres, conseguimos tanta coisa, que às vezes somos uns lobos solitários na sua toca. Pois conseguimos domar a nossa fragilidade. Mas não perde-la. E temos tanta...

A maternidade começa por nos confundir nisso mesmo: perdemos todas as barreiras, fronteiras, defesas e mecanismos: voltamos a ser aqueles corações pululantes que um dia nos fizeram chorar nos filmes da tarde.

A maternidade começa por nos lembrar que, afinal, ser frágil é a maior força que temos. E que não há nada mais imbatível que um coração que pula.

Não há músculo como o coração de uma mãe. Não há homem de negócios como o que vive dentro de uma mãe. E não há lágrimas mais nutritivas que as de uma mãe.

Não consigo ter a certeza que parte de mim é mais vulnerável, toda eu sou. O que não consigo é devolver ao mundo a certeza que cada passo meu não tem nenhuma incerteza. Tem, apenas, a certeza que a minha vulnerabilidade é a minha parte mais forte. É a que me permite ser tudo ou nada. Fazer tudo, ou não fazer nada. E viver, serena e em paz, com os passos que der, e mesmo com os que não der.

Respirar fundo. E confiar na Mulher que sou. Nem sempre se vê. Mas sente-se. E é só isso que é preciso.