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Amamentar, até quando?

No outro dia, enquanto almoçava com o João, o meu marido, ele perguntou-me se eu estava preparada para deixar de amamentar. Prontamente disse que não. De maneira nenhuma - suspirei de alívio quando constatei que não será para breve.
Amamento as minhas duas filhas, a mais velha tem quase três anos, e a mais nova tem seis meses. Queremos ter pelo menos mais um filho, e portanto, é possível que até deixar de amamentar definitivamente, não faça nenhum intervalo (a mais velha mamou sem interrupções, inclusive durante a minha segunda gravidez).

Amamentar é algo que me realiza como mãe, não sei se são as hormonas envolvidas, que combinadas geram esta sensação de felicidade e satisfação, que não poderia ser de outra forma. As minhas duas filhas agradecem, e embora seja por vezes bastante difícil e esgotante, é uma herança para a vida delas. Gostava que ambas guardassem memórias destes momentos nossos, conheço a amamentação pelo meu olhar e é tão enternecedor tê-las no meu colo, a olhar para mim, ou mesmo a dormir. Sentir que o meus braços, o meu cheiro, o meu peito é a casa delas, não precisando tão pouco de abrir os olhos para saberem que sou eu que estou ali. Imagino como seria se eu me lembrasse de ser amamentada pela minha mãe. Uau! Seria como um regresso à plenitude da minha infância, sempre que precisasse de me encolher naquele colo, sentir de novo o aconchego, quem sabe, o cheiro.
Nunca pensei desistir da amamentação, embora já o tenha verbalizado, mas apenas como desabafo e consequência de algum cansaço e insistência da mais velha, quando quer mamar mais vezes do que o normal, ou quer estar ali a fazer "miminhos". A maior parte das vezes compreende que a mana mama muito mais do que ela, o que facilita a dinâmica familiar.

É um momento nosso, e muito íntimo que gosto de partilhar porque é para mim especial. Não vou falar dos infinitos benefícios e vantagens, nos quais acredito cegamente, até porque não é por esse motivo que eu continuo a amamentar. Foi só uma questão que nunca surgiu no seio da minha família - que estranhamente faz confusão a algumas pessoas, mas também isso eu comecei gradualmente a assimilar e a aceitar, sem ficar incomodada ou desconfortável, como já chegou a acontecer antes. Procurei dentro de mim o que precisava para digerir as situações constrangedoras e seguir com confiança e firmeza o caminho que eu acho ser o certo, para a minha família, claro.

Devo dizer, que o facto de me ter formado como Conselheira em Aleitamento Materno, me deu uma dimensão ainda maior desta realidade, reforçando o meu desejo de amamentar por tempo indeterminado, independentemente do que à minha volta possam pensar ou dizer. Resolvi assumir sem vergonha, e de certa forma expor, porque desde que fui mãe, culminei numa nova mulher, mais madura, curiosa, confiante. E porque é para mim um orgulho, tal como outras mulheres, ter feito esta escolha, muito embora sejamos questionadas por esta opção - tão pessoal e legítima como outras opções, apenas diferente. Já ouvi um ou outro comentário menos simpático mas nada que tivesse relevo, de tal forma, que nem me recordo assim tão bem. Por outro lado, já li testemunhos e relatos que não deviam acontecer no mundo de hoje e com toda a informação que existe sobre o assunto, ou simplesmente, porque é um ato tão natural e genuinamente altruísta, de uma mãe, para com o seu filho.

É urgente olharmos para as outras mulheres com mais amor e menos julgamento. Com empatia e compaixão em vez de dureza.

Não há uma fórmula universal para este nosso papel, mas há algo que todas temos em comum e que nos devia unir, muito mais do que nos diferenciar. Sermos mães.