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Vidas impossíveis para o resto da vida

30 de Abril - O dia que mudou a minha vida
No dia 29 de Abril de 2008, depois de reuniões intermináveis de passagem da pasta do Serviço Jurídico na empresa onde trabalhava, saí para mais uma consulta de obstetrícia de rotina. Cansada, mal dormida e enfartada desde o dia anterior, é verdade, mas nunca pensei que esse dia mudaria a minha vida para sempre...
Depois de uma ecografia onde se verificou uma taquicardia fetal e falta de movimentos fetais, fui enviada para o hospital para passar a noite para monitorização. Ainda perguntei se podia ir à casa para ir fazer a mala para a noite mas calmamente o médico mandou-me de imediato para o hospital. Por volta das 22h, parecia que o bebe tinha estabilizado. Às 23h fui posta a soro e à meia-noite foi feito o toque.
Às 00h04 do dia 30 de Abril, uma equipa de médicos e enfermeiros entraram a correr no quarto e disseram que o bebé tinha que ser "tirado" de imediato. Mandei chamar o meu obstetra porque achei que estavam todos loucos e que só ia fazer o parto se o meu médico dissesse que tinha que ser. Pensava eu que não era possível nascerem bebés antes do tempo. Que ingénua para quem já tinha 32 anos!!
O Miguel, meu marido, fez a Segunda Circular a 200km/h para ir buscar o kit de criopreservação (que o médico não conseguiu recolher, situação que nunca se viu acontecer), o meu obstetra fez o parto descalço porque, com a pressa de chegar ao hospital, perdeu os sapatos.
Depois de muito sofrimento numa cesariana, foi-me dada anestesia geral, e assim nasceu o Quico.
E assim, renasci eu, o Miguel e toda a nossa família.

Este foi o dia em que a minha vida mudou... Que parte de mim morreu; que percebi a importância e a "desimportância" das coisas; que conheci a verdadeira tristeza e dor (pior só a morte de um filho); que perdi a crença em Deus, porque se Deus existe não pode dar às crianças este sofrimento; que perdi a alegria; que me passei a sentir mal com outras crianças.
Passaram 9 anos, mas continuo com dificuldade em ultrapassar este momento. Não consigo deixar de culpar tudo e todos.
Eu, porque me senti mal 1 dia e meio antes e não fiz nada, porque fiz alguns disparates no fim de semana anterior. O médico e a enfermeira-chefe, porque com tudo o que já ia mal no parto ainda o puxou mais que lhe causou 1 hematoma, porque todos os dias de internamento do Francisco me visitou no hospital e nunca me disse que tinha mudado as nossas vidas, como se fosse Deus ou o Diabo, porque salvou 1 vida incompleta, porque não conseguiu recolher as células estaminais. Toda a equipa do Hospital, que nunca disse o que se passava. Os avanços da medicina, que salvam vidas para as tornarem impossíveis para o resto da vida.


Enfim, mas como a minha super-mãe (e a melhor avó que o Quico podia ter), num momento de desespero e de dor, uma vez me disse "agora é nosso, não o podemos deitar fora", tudo fazemos para o ajudar e todos os dias fazemos alguma coisa pelo seu bem-estar.