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Ser mãe


Mãe, do latim mater, substantivo feminino. Mas é tão mais que isso. No dia em que a minha primeira filha nasceu, eu já era mãe. Tornei-me mãe no dia que soube que estava grávida. Naquele início de 2014, dois tracinhos rosados deram-me a melhor notícia de todas. Ou talvez eu já soubesse. Vou ser mãe, melhor, eu já era! Já carregava dentro de mim uma semente tão pequenina, mas tão grande ao mesmo tempo, eu era a partir desse momento, duas vidas, dois corações, dois corpos, mais sangue a pulsar dentro de mim, hormonas... Eu era daí em diante, a primeira casa da minha filha, o seu alimento, a sua respiração, o seu ambiente, o som que a acalmava. Eu era o seu universo, e não tinha a menor ideia disso.
No mesmo dia em que soube que ia ser mãe, contei ao João que estava grávida. Ele não acreditava, ainda meio incrédulo e entre as nossas gargalhadas, abraçou-me. Era felicidade aquilo que sentíamos. Não sabíamos exatamente o que ia ser a nossa vida dali em para a frente, mas estávamos felizes. E era assim que o meu sonho de infância começava agora a tornar-se real.
A barriga ia crescendo devagarinho, e eu só queria partilhar aquela notícia com toda a gente. Preferimos contar apenas à família, e só mais tarde aos amigos. Todos nos felicitaram, uns mais desconfiados sobre se teria sido um acidente. Mas não. Antes pelo contrário. Foi uma gravidez planeada. Eu e o João conversámos muitas vezes sobre termos filhos. Ele tinha vinte e cinco e eu vinte e sete anos, para mim estava mais do que na hora, para ele, nem por isso, sempre mais ponderado, racional, e cauteloso, fazia contas ao dinheiro que entrava e às despesas que tínhamos. Éramos do Norte, mas vivíamos em Lisboa e estávamos só nós os dois, sem a família por perto. Acabou por querer embarcar nesta viagem, combinámos agendar uma consulta com a minha Ginecologista/Obstetra para fazer exames e análises, e a partir daí, deixei de tomar a pílula. Engravidei no mesmo mês.
Foram nove meses felizes, adorei ver a barriga crescer, fui uma grávida tranquila e pouco extravagante no que toca aos consumos na puericultura. Apaixonei-me pela minha bebé ainda antes de a conhecer, e era por ela que me perdia de amores.
O João não sabia se ia assistir ao parto, a possibilidade de ver sangue deixava-o desconfortável, então o que combinámos foi que aguardaríamos pelo momento do parto, e aí se decidia (eu queria mesmo que ele estivesse comigo, bem sei que devia compreender o receio dele, mas a minha necessidade de o querer comigo falava mais alto). No curso de preparação para o parto ele foi estando mais consciente do que era o parto e mais disposto a estar lá comigo. Por vezes, eu questionava a tranquilidade dele em relação ao facto de estarmos prestes a ser pais, ele, que antes de eu engravidar sempre demonstrou alguns receios. Dizia-me que eu sabia exatamente o que fazer e que isso o deixava tranquilo.
Vivíamos num modesto T1, portanto questões sobre a cor ou o padrão do papel de parede para o quartinho da bebé ou quando é que a mudaríamos de quarto nunca surgiram. Sabíamos pouca coisa sobre ser mãe e ser pai. E o pouco que eu sabia era essencialmente do que sentia em relação ao que eu iria ser como mãe depois do nascimento da minha bebé. Eu ia querer amamentar, embora hoje em dia seja uma opção, para mim nunca foi questão. Nunca duvidei da minha capacidade de nutrir a minha filha. Só tracei uma meta, amamentá-la por seis meses em livre demanda. No mínimo. Hoje ela tem dois anos e meio e ainda mama, em simultâneo com a minha filha mais nova, chama-se amamentação em tandem.

O dia do parto chegou, não como eu esperava, dado que não iniciei o trabalho de parto de forma espontânea, como queria. No dia anterior a Obstetra fez o descolamento das membranas sem pedir ou avisar e eu acabava de ser ser vítima de uma indução desnecessária. Na madrugada que se seguiu dormi mal, e durante a manhã fomos para a Maternidade quando comecei a sentir as contrações já com intervalos curtos. Afinal estava mesmo no início, por isso, tínhamos ainda algumas horas pela frente que nos separavam do momento pelo qual tanto ansiávamos. Estas horas foram difíceis, o tempo parecia não passar, e eu acabei por entrar numa espiral da qual já não consegui sair, procedimentos evasivos que me faziam escalar na dor e na angústia, sem conseguir encontrar-me e tomar conta daquele parto que era meu. O João estava comigo, e foi juntos, que algumas horas depois, vimos a nossa filha nascer. E é nesse exato momento, por mais breve que seja, que os nossos sentidos explodem numa simbiose perfeita. A minha semente cresceu, e estava ali, diante de mim, podia finalmente olhar para ela, cheirá-la, ouvi-la, tocar na sua pele.
E para mim, ser mãe, tem sido isso mesmo. Ultrapassar as adversidades, fazer escolhas, confiar na minha intuição, e acima de tudo, amar as minhas filhas, nutri-las de amor e de memórias sensoriais que prevaleçam no tempo.