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Saber ser (in)feliz

“- Que desenho tão lindo, filha! Posso ver?” - disse eu, emaranhada no meu sentimento de culpa por, mais uma vez, estar a trabalhar em frente ao computador, e não lhe estar a prestar a devida atenção.
“- Sim! És tu mãe, com o bebé na barriga!” – respondeu ela, continuando compenetrada na sua minuciosa e detalhada tarefa.
“- Oh, que lindo, filha! Está lindo!” – elogiei. “- E isto aqui na cara… o que é?”
“- Isto são as tuas lágrimas porque estás a chorar muito!!” – respondeu ela naturalmente, fitando cada detalhe do seu desenho, como que assegurando que não se havia esquecido de nenhum pormenor.
Parei. Esbocei um sorriso forçado, querendo que ele ocultasse todas as questões que me vieram à cabeça naquele momento. Baixei a cabeça, carregada com o peso de uma espécie de constrangimento desconcertante. Olhei de novo.
A culpa!! Outra vez a culpa… lá estava ela! Forte e impiedosa. De há uns tempos para cá, eu chorava. Chorava demais talvez. Muitas mudanças e emoções para gerir… e (felizmente para mim!) a incapacidade de esconder medos, angústias e dificuldades.
“- Ver-me chorar teria tido um impacto assim tão grande na sua vida… para o expressar com tanta evidência numa das coisas que mais gosta de fazer?– especulei. “- Calma! É só um desenho… um único desenho perdido no meio de tantos outros, ilustrados com sonhos e traços firmes, unidos harmoniosamente por quem se expressa tão livremente em formas e cores.
Ainda assim, senti que devíamos falar sobre esse assunto que, de uma forma ou de outra, acabou por ter alguma relevância para ela (julgo eu!).
“- As mães também choram…” – adiantei.
“- Choram porque às vezes os filhos se portam mal?” – apressou-se ela a perguntar.
[…]
“- Minha querida filha…
Às vezes, as mães também têm medo. Também erram. Também se enganam e tomam decisões menos boas. Às vezes também estão cansadas. Se vires a mãe a chorar, não precisas entender o motivo. Não é por tua culpa, com toda a certeza. Um abraço de conforto é tudo quanto basta. Seja a mãe, seja qualquer outra pessoa.


Ficar triste ou até mesmo chorar não é sinal de fraqueza ou de infelicidade. Conseguir exprimir o que sentimos é antes um sinal de força e de coragem, de autoconhecimento, de aprendizagem, de respeito por nós. Filha, ninguém é perfeito e todos nos reservamos no direito de ficar tristes de vez em quando. Se algum dia te sentires assim… podes chorar! Chora sempre que precisares! Ainda que te sintas exposta por te revelares de forma tão aberta e natural… Liberta o que sentes, conversa com a tua tristeza, dúvidas e frustrações… conhece-as e entende-as, aprende a lidar com elas e depois resolve-as e arruma-as no sítio certo. Nesse momento vais crescer em emoções, força e resiliência… Vais levantar-te, delinear novas estratégias, avançar ou recuar se for preciso… E aí, meu amor, vais perceber que, para ser verdadeiramente feliz, é preciso também saber ser infeliz. Aprender a conhecer e gerir as nossas emoções sem ter de fingir que elas não existem ou que não têm importância. Sem ter vergonha de falar sobre elas. Aprender que somos seres imperfeitos que vivem vidas imperfeitas, mas que vêem nessa condição a oportunidade de crescer e de ser melhores e mais felizes.”