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Dark Side da Amamentação - Afogamento com Leite Materno


Não tenho dúvidas de que a amamentação natural é a melhor opção para a mãe e para o bebé. Para o bebé, menos cólicas (no caso do Duarte graças-a-Deus foram inexistentes), mais defesas, mais nutrientes, e para a mãe, uma super-ajuda na recuperação pós-parto. Senti na pele todos esses benefícios, como se a cada refeição dele o meu corpo fosse mais uns centímetros ao lugar. Sou pelas coisas naturais, acredito que tudo tem uma razão de ser e que se nós mulheres nascemos com essa capacidade extra é porque estamos à altura de a desempenhar. Sou pro-amamentação, mas não sou, no entanto, fundamentalista da amamentação natural, defendo que essa é uma opção e um direito individual de cada mulher. E, depois de ter passado pela experiência da amamentação natural, mais certezas tenho disso. Arrisco dizer que coloco em dúvida a amamentação natural num segundo filho e não quero saber se acham isso um ato egoísta ou não. Para o filho estar bem, a mãe também tem que estar.

O Duarte nasceu com peso acima da média, a balança bateu nos 4.090kg e anunciaram-me um bebé de percentil 90. Foi uma surpresa para mim pois as ecografias estimavam um bebé de 3.600kg. No recobro, não lhe pude pegar e já contei porque no artigo anterior, mas felizmente no meio de tanta turbulência ele pegou logo bem na mama e fui incentivada – e bem - a amamenta-lo. Ele parecia ter 1 mês de vida, eu tinha leite e estava fora de questão precisar de suplemento.

No entanto, a minha experiência de amamentação tem tanto de sucesso (com 1 mês de vida o Duarte já tinha mais de 5kg) como de sacrifício. A amamentação teve para mim um dark side que se revelou um pesadelo diário. E não estou a falar do peito gretado que nos faz correr as lágrimas e morder os lábios a cada pega, nem do peito rijo e encaroçado, a anunciar uma mastite, que tantas vezes tive que combater com água quente, massagens e óleo de amêndoas doces. Nunca foi fácil manter o peito saudável. Amamentei o Duarte até aos 6 meses e não houve mês que não tivesse um episódio de ameaça de mastite, acompanhado de muitas dores.

Mas o meu dark side não foi esse. Imaginem terem que reanimar o vosso filho durante a amamentação? Foi isso que me aconteceu durante os primeiros meses de vida dele. O Duarte começou a sufocar quando mamava, é o chamado “afogamento com leite materno” e eu tive que lhe fazer várias vezes a manobra de reanimação que – (in)felizmente - aprendi no curso de preparação para o parto. Aquilo que começou por ser um prazer e uma conexão entre mãe e filho tornou-se um pesadelo diário para mim. Comecei a ter cólicas e suores quando ele chorava com fome, pois já sabia o que se ia seguir: ele mamava, a meio começava a ficar roxo e sem respirar e eu tinha que lhe fazer a manobra de reanimação, com uns nervos que nem como o pânico não se apoderou de mim. E digo-vos, é do caraças ter que fazer isto ao nosso filho vezes sem conta. Apetece-nos rogar pragas á amamentação e ao papel de mãe. Temos literalmente a vida deles nas mãos. E vocês pensam, porque não mudei para o biberão? Porque o problema não era da mama, o problema era dele, era trapalhão, não dominava o processo de sucção, engasgava-se e tinha dificuldade em resolver sozinho.

Nunca me vou esquecer de um episodio em que após o alimentar estava a descer as escadas com ele ao colo para ir abrir a porta à madrinha que nos vinha visitar e, ali, no meio das escadas, ele começou a ficar aflito, a mudar de cor, e tive que o virar ao contrário e dar palmadas nas costas para lhe desobstruir as vias aéreas. Eu mal tinha posição, as nossas escadas são ingremes e estreitas, as minhas pernas tremiam, mas aí dele que não recuperasse o fôlego ali naqueles segundos. Os especialistas recomendam ter calma, mas nenhuma mãe consegue ter calma e sangue frio suficiente para ver o bebé engasgado e procurar a melhor posição, o local mais adequado ou o raio que o parta. Tinha que resolver todas as situações ali, na hora, onde todos os segundos contam. Quando abri a porta estava pálida e fiquei com o dia estragado. E o pior é que este foi um de muitos. Como é que não se chora no momento? Como é que se arranca isto da memória?

Um dos motivos que podem levar os bebés ao “afogamento com leite materno” é a posição durante a mamada ou o volume de leite disponibilizado pela mãe. Basta um erro de respiração para desencadear um engasgo destes.  Agora, com mais distância e mais informação sobre o tema, percebo que é comum e que não costuma trazer consequências negativas para a saúde dos pequenos. Ainda assim, há coisas que ficam marcadas para a vida.

Não quero com este desabafo ser alarmista nem assustar ninguém, muito menos desencorajar a amamentação natural, mas acho que quanto mais informação temos mais preparadas estamos. Para mim, foi muito útil ter feito este tipo de preparação no curso de pré-parto. Os especialistas dizem que por norma os bebés se conseguem auto desengasgar. Eu não sabia disso e a frequência era tanta que nem queria esperar para ver. Mas também aconselham a recorrer ao pediatra caso sejam muito frequentes para se fazerem exames mais completos.

Em todo o caso, deixo-vos um gráfico útil com os procedimentos a adotar:


Beijos,
Raquel