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A pergunta “como posso educar melhor o meu filho?” devia ser substituída por “quem sou eu?”

Os animais ensinam-nos muito sobre nós mesmos. Um dia destes vi a minha gata atrás de mim a tentar obter carinhos e, como estava com pressa, não lhe prestei atenção. A gata continuou a tentar obter a minha atenção, sem qualquer vergonha ou receio de o fazer. Ela podia fazer o que muitos seres humanos fazem e pensar “já que ela não me liga, vou desistir, não vou andar aqui atrás dela, tenho o meu orgulho pessoal”. Mas não. A minha gata não tem orgulho. Ela simplesmente quer atenção e procura-a, sendo meiga e carinhosa. Nesse dia derreteu o meu coração, porque me ensinou que se perseguirmos os nossos objectivos, desarmados, sem medos e sem vergonhas, podemos consegui-los ou não, mas pelo menos tentamos.

Num outro dia a minha gata quis a minha atenção. E nesse dia foi diferente. Eu não a dei de todo e ela não tinha hipótese de ronronar à minha volta porque a porta estava fechada. Então fez uma asneira e assim eu tive que ir ver o que se passava. Percebi nesse momento que as crianças têm esse comportamento em comum com os animais. Temos com eles mais em comum do que o que pensamos:
Agressividade, Ciúme, Vontade de Dominar, Competição, Matemática, Uso de ferramentas, Até Cultural
E foi então que eu pensei no Ego. No ego das crianças, dos adultos, dos países. Nos egos em choque, a provocar guerras. Os egos ocidentais e os egos do estado islâmico. Cada um a representar uma identidade, um conjunto de ideias e crenças.

Mas o que é o Ego?
Sem entrar no campo da explicação técnica da psicoterapia, mas antes usando aquilo que aprendi teoricamente nos últimos anos, quando comecei a ler mais e mais textos de um filósofo e educador chamado Krishnamurti, podemos dizer que o Ego, Self, Eu, é um  conjunto de conhecimentos acumulados, experiências, que constituem memórias, memórias genéticas, passado, cultura, ideias, crenças, conflitos, esforços para ser ou não ser, aquilo que em nós deseja prazer e recompensas, o que teme, o que sofre, o que compete.

Saber isto teoricamente é fácil. Mas o que significa compreendê-lo, de verdade?

Compreender de verdade, aprender, implica aplicação prática, envolve observação na vida diária, de nós mesmos, dos outros e do exterior. É assim que se fazem grandes descobertas científicas, com total abertura e com um cérebro inocente, que observa com atenção para poder aprender mais e mais sobre o mundo.

Mas e dentro de nós, não haverá descobertas para fazer? Caminhos a trilhar? Coisas a observar?
No dia a dia comecei a prestar atenção às pequenas coisas. Comecei por prestar atenção ao meu corpo, a conhecê-lo melhor. Depois comecei a perceber que tinha muitos mecanismos automáticos e comportamentos que nunca tinha questionado. Essa atenção mais tarde passou para os outros, para o mundo, para o meu filho. Até que regressou para mim, mas de uma forma mais intensa. Ver-me ao espelho não foi agradável. Custou porque criei uma imagem diferente de mim mesma e não estava a ver o que idealizei.

Aprender constantemente não é fácil, mas a boa notícia é que essa aprendizagem nunca acaba.

No outro dia, estava eu no Pingo Doce, cansada e a sentir-me sem vida e sem vontade de falar com ninguém, quando reparei numa pessoa simples e humilde que iluminava a fila para pagar as compras, conversando animadamente com os clientes. Era a funcionária da caixa. Presente, ela conversava com todos. Eu não queria falar com ninguém, só queria chegar a casa e não ter que cozinhar, arrumar e pôr o meu filho na cama. Mas aprendi algo mais nesse dia…

Estar presente é a maior fonte de energia do mundo!
E quando não aceitamos o que somos, o que temos e onde estamos, gastamos a nossa energia a projectar o futuro ou a pensar no passado.
Eu não estava ali, no Pingo Doce. Estava no futuro, em casa, na cama, com tudo feito, tudo arrumado. Era onde queria estar.
Muitas vezes não temos paciência para os nossos filhos simplesmente porque tivemos um dia mau e o nosso cérebro fica cheio de pensamentos confusos, temos sensações desagradáveis e sentimo-nos cansadas. Então descarregamos as nossas frustrações nos seres mais fracos e desprotegidos, as crianças e os animais. Esses não nos vão despedir, não nos vão abandonar. Não têm orgulho.

Pouco sabemos sobre a vida para além do ego e parece ser algo distante de nós, utópico até, porque ele é tudo o que temos (mas não conhecemos), mas talvez possamos começar de perto, para irmos longe, começarmos na nossa vida, nas nossas relações, a tentar ouvir o que acontece dentro de nós quando temos uma conversa, uma discussão, quando nos dizem algo, quando sentimos algo. Podemos começar a identificar os personagens que nos habitam, as crenças  e ideias que nos condicionam, as emoções que nos aprisionam, as sensações que temos. Aos poucos muitas ideias, muitos hábitos inquestionáveis podem mudar. Pequenas grandes coisas que trazem mais paz para a nossa vida, para o nosso lar e para as nossas relações com familiares, filhos, amigos, colegas de trabalho.

Ao conhecê-los começamos a conhecer-nos também melhor, mas atenção, este processo é doloroso, e surge uma espécie de “dor de ego”, porque ele não quer morrer, é como se fosse uma entidade viva que para sobreviver precisa que o alimentemos – de medo, de desejos, de competição, de lutas de poder, de raiva, inveja, ciúme, agressividade, orgulho, etc.. Tudo isto pertence ao animal e nós precisamos disto para sobreviver num nível básico, mas quando as necessidades básicas já estão satisfeitas é muito difícil pô-lo de lado e dizer-lhe que agora já não precisamos de o usar, que já não precisamos de escudo, que não precisamos de fingir ser o que não somos, que estamos bem onde estamos e que o mundo pode ser conhecido e explorado apenas com curiosidade e paixão, sem pretender alcançar resultados que nos façam sentir superiores aos outros.

Na vida quotidiana temos uma oportunidade enorme de auto-conhecimento porque temos espelhos em todos os cantos e esquinas. Esses espelhos são os outros. Os maiores e mais nítidos são os animais e as crianças. Fazem o que nós fazemos, não o que dizemos. Sentem o que nós sentimos, mesmo que não o expressemos. E é precisamente com esses seres sensíveis que explodimos mais frequentemente, porque sentimo-nos mais à vontade, mais “nus”, para o poder fazer.

Não acredito numa educação verdadeira sem auto-conhecimento. Precisamos de conhecer esse famoso Ego para podermos amadurecer, florescer como pessoas. De outra forma, andamos em círculos a experimentar tudo e mais alguma coisa, a procurar um milagre que nos salve dos problemas que temos.

 Desculpem-me os senhores dos métodos  e sistemas que escrevem muitas coisas sobre como devemos fazer para bem educar e sobre o que está bem e está mal, mas sem compreensão  do que se passa em nós não é possível sermos bons pais, porque vamos estar sempre a ver o problema fora de nós. Podemos seguir métodos e planos  de coaching até ao dia em que explodimos porque não aguentamos mais (tal e qual como as dietas sem consciência da alimentação e auto-conhecimento do corpo).

A responsabilidade vem com o auto-conhecimento. Sermos perfeitamente conscientes das nossas acções, sem desculpas, sem escudos, sem defesas, mesmo que não tenham sido as mais correctas, representa a única verdadeira e infalível possibilidade de mudança na educação e na vida.