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Amamentação e as pedras no caminho: a nossa história

“Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...” (Fernando Pessoa)

Fui mãe, pela primeira vez, em 2014. Durante as 41 semanas e alguns dias de uma gravidez saudável e desejada, senti-me mais tranquila e activa do que nunca. Sentia todo o “desenrolar do processo” como algo natural e descomplicado e não fui assaltada por receios ou medos. O parto não era tema que me assustasse e a amamentação sempre esteve nos meus planos. Sem racionalizar muito sobre estas questões, sentia-me tranquila e confiante em relação a ambas ao ponto de nunca ter sequer idealizado outros cenários. O parto, sempre soube que queria que fosse o “mais natural possível”, sem saber, na verdade, o que isso significava realmente. Estava informada, desde ainda antes de engravidar, sobre os benefícios do parto vaginal vs cesariana e, para mim, não existia mais nada para além desta dicotomia. Sabia que, se dependesse apenas de mim, se não pusesse em causa o bem-estar ou saúde do meu bebé, seria esse o caminho.
A amamentação também encarei como assunto encerrado. Sem margens para dúvidas ou alternativas. Consciente e informada de que seria o melhor para o meu filho, nunca equacionei outra forma de o alimentar e nutrir. E, por isso, na hora de preparar a mala para a maternidade, não fiz o “check” nos quadradinhos d' ”A Lista” que confirmavam o biberão e a chupeta. Também não duvidei (acho que nem sequer pensei sobre isso) de que tudo correria bem. Confiei.
O parto acabou por ser induzido e, ao longo das 36 horas de trabalho e com a tranquilidade possível em meio hospitalar, aconteceu algo quase inconsciente que me empoderou e, tenho a certeza, viabilizou o desfecho em parto vaginal e a amamentação que dura até hoje.
Mas houve um percalço pelo caminho. Um percalço inesperado e turbulento que confirmou a rota do empoderamento e nos levou mais longe. Às quatro semanas, embrenhados e empenhados no ritual de tortura e ditadura da balança com as pesagens semanais, surge um alerta: o meu filho não aumentara de peso entre a terceira e quarta semanas. Eu, apesar disso, não senti o alarme. Sentia que o meu bebé estava bem e isso deixava-me tranquila. Mas à minha volta as vozes eram dissonantes. Um dia depois, decidimos, eu e o meu marido, ligar ao médico... Relatamos o sucedido e, do outro lado da linha, ouvimos gritos que nos mandavam imediatamente à farmácia comprar leite artificial. Fiquei chocada com aquela reacção, mas não acatei a “ordem”. Não ressoava cá dentro. 

Assumi a decisão, sempre apoiada, e procurei uma resposta alternativa. Encontrei-a numa CAM – Conselheira em Aleitamento Materno -, recomendada por uma amiga. Era uma CAM voluntária que, naquele momento, não tinha tempo para  uma visita presencial, mas na conversa que tivemos ao telefone aconselhou-me a extrair o meu leite e a suplementar com ele, de preferência sem recurso a biberões. Assim fiz. Foram dois meses loucos, numa rotina que acrescentou cansaço à dinâmica já exigente de um recém-nascido. Mas, em retrospectiva, quando olho para nós e olho para trás, sinto aqueles dois meses como dois segundos. Mantive a amamentação em livre demanda, que foi o que sempre me fez sentido, não obstante as instruções na maternidade para estabelecer horários. Nunca me pareceu razoável que um bebé tivesse horários para saciar a fome/matar a sede/ser reconfortado/regular a temperatura corporal/regular os batimentos cardíacos..., nem há fundamentação científica para tal, pelo contrário. Na natureza não há relógios e as fêmeas não duvidam da sua capacidade para alimentar as crias. Seguem o instinto e é isso que estamos a perder: essa ligação connosco, a confiança no nosso corpo e nesta nossa maravilhosa capacidade de nutrirmos as nossas crias (física e emocionalmente) outrora reforçada pelo exemplo de outras mulheres do nosso círculo. O meu bebé aumentou de peso, cresceu saudável e confiante e a amamentação fluiu, sem mais percalços, desde então.
Desta experiência alucinante e, em alguns momentos, assustadora, resultou um maior empoderamento e confiança no instinto e na ligação com aquele bebé que cresce tão depressa. Resultou também mais uma CAM voluntária quando, naquele frenesim, me dei conta de que muitas outras mulheres se deparavam com algum tipo de dúvida, problema ou obstáculo ao longo do processo de amamentação e que a esmagadora maioria estava a ser mal aconselhada. Fiz a formação de CAM, aprofundei o tema, estudo e faço por outras mulheres o mesmo que um dia fizeram por mim. Sou Conselheira em Aleitamento Materno porque a amamentação nem sempre fluiu e porque há muitas mulheres que precisam de ser aconselhadas neste processo.


Somos mais fortes quando transformamos a nossa dor em mudança positiva, fazemos a diferença na vida de outras pessoas e na nossa… e construímos um castelo.