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Sobre o Medo do futuro das Crianças

Alguns pais indecisos sobre o que fazer em relação à educação dos filhos dizem que educar com e para a liberdade “é um sonho”, mas que têm de cair na realidade. 
A realidade é a sociedade, a família, o(a) parceiro(a) indeciso(a) e céptico(a), a carreira, o sucesso, o futuro. Ah, e a matemática.
Há um medo generalizado das crianças não serem capazes de aprender matemática a não ser com muito estudo, prática e pressão. 
Em primeiro lugar, há inúmeras formas de ensinar matemática e normalmente só exploramos uma, na qual se incluem o método expositivo, as fichas, a repetição. Há excepções claro, e mesmo nas escolas públicas.
A matemática pode ser vista como a linguagem do universo; o português é a linguagem que usamos para nos entendermos em Portugal e em outros países de expressão portuguesa; para programar um computador podemos usar várias linguagens; a dança é a linguagem do corpo em movimento pelo espaço; a ‘língua’ musical consiste em combinações e sucessões de sons, diversamente articulados, etc.
A matemática ensinada abstractamente fica desprovida de significado, tal como ensinar um conjunto de notas musicais repetidamente, retiradas do contexto de um tema ou ensinar palavras e figuras de estilo antes de se saber o que é falar e de explorar a expressão através das palavras faladas ou escritas.
Podemos então compreender a matemática como algo prático, útil para entendermos o mundo à nossa volta, começando pela vida diária, pela resolução de problemas reais, sem necessidade de avaliação ou pressão. E daí partir para problemas mais complexos a partir dos quais se vai caminhando passo a passo. Passo a passo os bebés saudáveis aprenderam a andar. Aprenderam a falar. Porque não hão-de aprender também facilmente outras linguagens como a matemática?
As crianças não gostam de aprender o que não lhes interessa. Ninguém gosta, é um facto. Imagine-se sentado durante 8 horas a fazer exercícios que não lhe interessam porque “aprender é divertido” ou porque “tem de ser, para um dia seres um médico de sucesso”. Imagine só poder falar com os seus amigos durante 30 minutos no recreio. E não poder desenvolver os seus interesses e talentos porque agora é a hora da matemática e é uma prioridade. Não poder olhar para a janela e ver o pássaro a voar; não poder deixar o pensamento livre ou a mente sem pensamentos porque isso demonstra défice de atenção.
Para a maioria dos pais e educadores no geral, a prioridade é o sucesso académico, ou seja, as notas.
Mas não deveria ser a nossa prioridade ajudar a criança e jovem a aprender verdadeiramente (e não apenas passar em exames, ter boas notas e esquecer metade do que estudou a seguir), a descobrir e desenvolver os seus talentos, a aprofundar a sua relação com a natureza, consigo mesmo e com os outros: amigos, família e professores?
Para isto acontecer o nosso foco não pode continuar a ser o conteúdo mas antes a estrutura.
Imagine que a criança é um vaso. O que é mais importante na criação de um vaso? A estrutura ou o conteúdo? De que serve o conteúdo, seja água ou vinho, se a estrutura está mal construída, tem rachadelas?
Para construir uma boa estrutura temos que nos focar no mais simples da vida – no amor, nas relações saudáveis, no respeito, na liberdade, nas regras e limites; em deixar a natureza fazer o seu trabalho permitindo que o corpo e a mente se desenvolvam de forma harmoniosa.
Para continuar a construir uma boa estrutura, o movimento e as artes são essenciais e basilares.
As crianças que não tiveram oportunidade de desenvolver-se fisicamente, subindo e descendo muros e árvores, correndo, saltando, têm mais dificuldades em pegar numa caneta para escrever.
O Teatro, por exemplo, permite à criança desenvolver ferramentas como a linguagem, a dicção, a projecção da voz, a memorização, a responsabilidade, a cooperação, etc..
Cada vez mais as crianças são diagnosticadas (e muitas vezes mal diagnosticadas) com défice de atenção, hiperactividade, com síndrome de asperger e autismo.
A minha percepção sobre este problema, sobre esta verdadeira catástrofe, prende-se com a relação entre a criança e o ambiente que a rodeia. Uma criança quando nasce precisa de sentir-se amada, nutrida, precisa de deitar-se no colo dos pais e sentir confiança. Se os pais e o mundo à volta não a aceitam como ela é, a criança em vez de desabrochar, vai fechar-se. Se a alimentação é agressiva, se a medicação, o vestuário, os cosméticos, etc. a afectam e intoxicam por ser muito sensível, a criança fecha-se também. Para que volte a abrir-se e a relacionar-se com os outros de uma forma equilibrada, temos que ganhar a sua confiança e amá-la, olhá-la nos olhos, querer mesmo saber quem ela é. Temos que ajudá-la a sair do seu “mundo” fechado, dos seus pensamentos compulsivos, das suas emoções viciantes, e isso acontece devagar. Temos, repito, que olhá-la nos olhos, alma com alma. É preciso paciência, mas temos todo o tempo do mundo.
Quando a estrutura está construída, o conhecimento, o pensamento, os conteúdos são absorvidos facilmente pois aquele vaso quer receber informação, quer aprender sobre o mundo. Mas é importante também ensinar à criança que o vaso pode ficar vazio e é nesse vazio que a criança se encontra com algo maior do que a sua estrutura, com algo maior do que si mesmo. E o que é esse vazio, esse desconhecido? Cada um terá de descobrir por si…
Quem não gostaria de ter sido amado e respeitado na sua educação? Porque não podemos dar isto aos nossos filhos, para que eles sejam fortes pilares na construção de uma sociedade verdadeiramente humana? Porque temos outras expectativas, mais práticas, inerentes a esta sociedade totalmente dependente do sucesso financeiro? Por medo do futuro? E porque temos medo deixamos as crianças continuarem a ter medo da sua vida actual, do seu dia-a-dia enfadonho, stressante, sem relações verdadeiras, reais, longe dos pais?
Olhemos nos olhos deles e procuremos o mesmo brilho que tinham ao nascer. Esse brilho deve ser o nosso guia na sua educação. Quando eles estão “apagados”, aborrecidos, temos que parar, observar, mudar.
É importante pensarmos todos sobre isto. Questionar sem medo. Observar o que ressoa em nós quando reflectimos. E ser sincero, ser Verdade.

Ser pai e mãe é a maior responsabilidade que temos na vida. Educar é a maior de todas as artes. E o melhor do mundo são as crianças! Perder a oportunidade de dar tudo para ouvir os nossos filhos, para lhes perguntarmos o que querem fazer, para apoiá-los, para partilhar o que também nós aprendemos sobre o mundo e sobre a vida, para deixá-los viver as suas experiências e também deixá-los ter as inerentes consequências, é perder a oportunidade de deixar um outro ser humano viver. E viver é aprender. Naturalmente, sem esforço…

Por Ivone Apolinário