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Quero um bife with batatas!


A Joana (ou seria Maria?) vivia em França com os pais portugueses. Aos três anos dizia coisas como “Quero um bife avec batatas”. Isto foi há muitos, muitos anos e causava-me muita estranheza.
Na época estava eu longe de imaginar que um dia iria ter um filho bilingue. Hoje sabe-se muito mais sobre o bilinguismo do que no tempo em que a Joana trocava as palavras das duas línguas e o que se sabe são boas notícias: os bilingues têm maior destreza mental, são menos susceptíveis a doenças como o Alzheimer, são mais criativas e apresentam uma clara vantagem num mundo que é cada vez mais global.
No caso do meu filho, o bilinguismo só se nota ao nível da compreensão. Ainda fala pouco (segundo alguns estudos a imersão em duas ou mais línguas pode levar a um ligeiro atraso na fala) e 95% das palavras e frases que diz são em inglês. Uma das primeiras palavras, “gata”, foi em português e devemo-la à Chloe, a nossa gata que faz as delícias da minha criança. Mamã e Dada (de “daddy”) vieram mais tarde e de quando em vez sou também chamada de “mummy”. Vivemos num mundo practicamente inglês: o pai é inglês, a televisão é quase toda em inglês, a maioria das pessoas no nosso dia-a-dia são inglesas e por isso o português teima em não fluir.
Nas viagens a Portugal, faço sempre questão de pedir a toda a gente que fale com ele em português. Sei que tem piada ouvi-lo tão pequenino a dizer “moon” e “door” mas o esforço tem mesmo de ser feito. Mais difícil ainda é responder-lhe em português quando fala em inglês e algumas vezes também eu deslizo, mas acredito que quanto mais persistir, melhores serão os resultados.
Confesso que quando estava grávida e até nos primeiros meses de vida, pensei que fosse ser mais fácil “incutir” o português ao T. O que ia lendo sempre referia que as crianças têm tendência a falar primeiro a língua usada pela mãe ou pelo principal cuidador (no meu caso sou eu). Pensei que fosse um processo natural e que não teria de intervir para incentivar o uso do português, mas enganei-me, o que me deixa um bocadinho triste. Mas a palavra de ordem é continuar e persistir. Ler livros em português, ver televisão portuguesa, ouvir música portuguesa, são algumas das coisas que vou fazendo com alguma consistência. Para além da língua, quero que compreenda e sinta a cultura portuguesa. Quero que se sinta português.

Com todas as dúvidas com que os pais se confrontam, esta talvez seja uma preocupação fútil ou menor, dirão alguns. Talvez seja. Mas acredito que poder dar ao meu filho uma vivência mais plural é um dos maiores presentes que lhe posso dar. E até lá, tenho a certeza de que irei ouvir muitas vezes, no tom mais adorável de sempre, “Quero um bife with batatas”!

Por Cristina Moreira