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Maio Mãe


O meu filho tem 7 anos. Se tivesse sido mãe quando o planeei teria agora 11. Mas a vida é mesmo assim, nós, na nossa ingenuidade e optimismo, planeamos, e  ela troca-nos as voltas, obrigando-nos a reagir e a encontrar novos caminhos e soluções.
Não imaginava de forma alguma, que vinda de uma família enorme, (tenho 3 irmãos e 22 primos), engravidar pudesse ser um problema. Foram quase 5 anos a tentar, durante os quais o dia da mãe foi ganhando um significado diferente. Se sempre o tinha sentido como filha, desejava cada vez mais vivê-lo como mãe.
No primeiro ano de tentativas para engravidar, tudo foi encarado de animo leve e muita descontracção. Tudo tem o seu tempo e eu não tinha assim tanta pressa. A natureza havia de seguir o seu curso (pensava eu), já que o organismo havia de precisar de desintoxicar, depois de vários anos de contracepção.
Passado o primeiro ano, as dúvidas começaram a surgir, insinuando-se devagarinho. Falei com amigas, ouvi vários conselhos, comecei a medir a temperatura, a contar dias, a tentar prever o período fértil. Daí ao sexo com dia e hora marcada e posições sugeridas pelas “especialistas” e ditas “infalíveis” foi um passo. No inicio teve alguma graça, mas rapidamente, mês após mês a graça desapareceu.
A custo assumi que algo de errado se passava. Marquei consulta com a ginecologista, fizemos vários exames, que se revelaram completamente inconclusivos.
A médica, não encontrando a razão do insucesso, justificou que muitas vezes era mesmo assim, a medicina não explica tudo e ainda há um mundo por descobrir. Fiquei siderada! Então em pleno século XXI, eu não conseguia engravidar, e não me conseguiam dizer porquê?
Sugeriu começar por estimulação hormonal com acompanhamento da maturação dos óvulos, e foi o que fizemos, com muitos nervos á mistura, derivados do meu pânico de agulhas, mas era por uma boa causa.
Tudo decorreu na maior normalidade, óvulos lindos, tamanho espectacular, expectativa em alta, mas na hora H... Nada. A fertilização não acontecia.
Foi o principio de um longo caminho, que mais parecia uma montanha russa de emoções.  As ecografias, a esperança. A espera, as neuras. Um atraso, a esperança... A decepção. Ao fim de vários meses de tentativas semelhantes, a médica aconselha descanso. “Deixem de pensar nisso por uns tempos e depois revemos possibilidades.”
Deixar de pensar... Como se fosse possível! O tempo passava, e eu já só via grávidas e bebés á minha volta! Parecia que o mundo era feito de grávidas e bebés e eu por aqui á espera de minha vez, a tentar “não pensar nisso!”.
Neste intervalo, soube de alguém com ovários poliquísticos, que tinha conseguido engravidar após algumas sessões de acupunctura com determinado médico. Boa! (pensei eu) , comigo ainda vai ser mais rápido pois se os meus ovários até funcionam bem... Apesar do meu pânico de agulhas, decidi experimentar, já estava disposta a tudo.
Foram 11 sessões intensas de electro-acunpuntura, que é como quem diz, agulhas ligadas á corrente... Cada sessão era uma sessão de tortura, saía da sala numa pilha de nervos, com as lágrimas a escorrer pela cara abaixo, mas insistia em marcar nova sessão. Na décima primeira sessão o medico lá me convenceu que aquilo estava a fazer mais mal que bem. Naquele estado de nervos não valia a pena continuar. Desisti.Percebi que era o mais razoável. Mas ainda assim a mãe de todas as culpas atacou em força.
Culpa por ter adiado a maternidade para depois dos 30, culpa por ter tomado contraceptivos, culpa por isto e por aquilo.
Parei uns dias para pensar, ponderei alternativas. Voltei á medica.
Ela, perante o meu cenário aconselha inseminação in vitro e encaminhou-me para uma clínica de fertilidade.
Questionei algumas vezes se teria força para o que estava para vir, decidi que sim.
Pilhas de hormonas injectadas todas as noites, análises ao sangue dia sim dia não, ecografias sem fim. Extracção de óvulos... a espera. A esperança. O fracasso. Recomeçar. Mais dor. Finalmente um positivo. Estava grávida! Foi a loucura.  O histerismo. Ver num grãozinho de arroz um batimento cardíaco parece um milagre. É um milagre.
Mas ainda não era para mim. O aborto expontâneo mesmo só tendo 3 semanas foi um abalo tremendo. Comecei a duvidar de tudo, principalmente de mim. Conseguiria passar por tudo outra vez? O medico aconselhou um mês de descanso para o corpo e a mente.
Durante esse tempo, ocorreu-me que o dia da mãe estava de prestes a chegar, e mais uma vez o dia não seria para mim como mãe, mas como filha. Senti-me a fraquejar.
Voltámos à clínica em Maio. Os dias passaram, entre agulhas e exames vários.
Feita a Fertilização in vitro, no meu caso ICSI (microinjecção intracitoplasmática), chegou o dia da implantação, ainda em Maio.
De novo os exames e a espera interminável. Nervos á flor da pele, hormonas a mil. Finalmente o telefonema. Estava grávida. Devia ter saltado. Gritado de felicidade... Já não conseguia. Tinha medo. Medo de que não fosse real, que fosse uma miragem, um sonho. Medo de acordar.
Os primeiros três meses, foram de incredulidade. Finalmente ás 12 semanas, findo o acompanhamento na clínica de fertilidade, voltei à minha médica e comecei a permitir a mim própria acreditar que era real. Que podia ficar feliz. Passada a nuvem da amniocentese, permiti-me começar a acreditar que finalmente tudo estava bem. Normal, tudo estava normal. Acho que nunca gostei tanto de ouvir a palavra normal.
A felicidade era plena. Passei a gravidez num verdadeiro estado de graça. Tão feliz, que ás vezes me sentia culpada dessa felicidade.
Claro que tive enjoos, e coisas várias, típicas da gravidez, mas tudo me parecia pequenino, insignificante. Todos os problemas à minha volta pareciam pormenores sem grande importância. Nunca me tinha sentido assim, como que a flutuar quase inebriada.
Fiquei grávida ainda em Maio, tornando este mês ainda mais especial. Mês do aniversário da minha mãe, do meu aniversário, do aniversário da minha gravidez e o mês de todas as Mães (Eu incluída!).
Depois de tudo, sinto que devia ter uma frase espectacular e inspiradora. Não tenho, mas tenho algumas certezas.
Sei que fui abençoada, pois nem todas as histórias de infertilidade culminam numa gravidez bem sucedida, somos infinitamente mais fortes do que imaginamos (devia lembrar-me disto mais vezes), e se querem ter filhos, não adiem demasiado, pois nem sempre é assim tão fácil.  

Por Natália Rodrigues