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Como falar sobre adopção



Esta semana li uma lista de 10 coisas a dizer e não dizer sobre a adopção. Estava a ler e pensei nas vezes que ouvi algumas destas coisas e o quão desagradável pode ser. Claro que as pessoas não querem ser desagradáveis, acho que apenas nunca pensaram nisso e muitas das vezes nunca conheceram pessoas que tiveram filhos por via da adopção. Também em conversa aqui há uns dias com outros pais, me apercebi da importância das palavras e de como se diz as coisas. A verdade é que eu também não tinha pensado muito nisso até me acontecer.

Deixo aqui alguns exemplos que me lembro e que tenho ouvido:
1. Esta é que é a tua filha adoptada?
O ser adoptada não é uma característica, mas sim a forma como chegaram às suas famílias. Uma filha foi adoptada ou chegou por via da adoção, e não é adoptada. Eu tenho 2 filhas, uma por via biológica, uma por via da adopção. Não há filhos biológicos e filhos adoptados, há filhos!
2. Qual delas é mesmo tua filha?
Lembramo-nos sempre de mil e uma piadas que se podem responder. Mas contenho-me sempre. Elas são mesmo as duas minhas filhas!
3. Conheceste a mãe verdadeira?
Nós somos mesmo os pais verdadeiros! Pode dizer-se mãe/pai biológico ou progenitor/a.
4. Ela teve imensa sorte!
Esta ouve-se imenso, sobretudo nos primeiros tempos. Eu respondo sempre que nós é que tivemos muita sorte. E é isso que sinto, e qualquer pessoa que conhece a K. vê que é mesmo assim :). E a verdade é que, como já escrevi, eu tive imensa sorte duas vezes!!!
Por outro lado, ouve-se poucas vezes "Parabéns!" ou "Felicidades!", e outras coisas boas que se dizem quando alguém tem um filho.
5. Vocês são mesmo boas pessoas...
Qualquer pessoa que me conhece sabe que boazinha é mesmo um adjectivo que NÃO se aplica a mim (embora o mesmo não se possa dizer sobre o Pappi)... Para mim a adopção foi e é um processo totalmente egoísta, que vem ao encontro do meu(nosso) desejo e vontade de criar uma família. Claro que também é um ato de amor, e é preciso estarmos preparados para amar um "estranho" e tornar-nos mães/pais dele, mas isso também é verdade com o nascimento, acontece é de outra maneira.

A história de cada criança a ela pertence, e por isso o ideal é não fazer perguntas sobre ela. Eu percebo que as pessoas queiram saber, mas o ideal é esperar pela informação que os pais querem ou acham que devem dar, em cada momento, a cada pessoa. Eu fartei-me de ouvir isto durante as formações que tive, mas só depois de ter a K. me apercebi da real importância disto.
Naturalmente que a adopção tem desafios específicos com os quais tenho que lidar, mas assim é a maternidade, e cada filho traz os seus desafios.
Escrevo este texto para que nos deixe pensar na importância das palavras que usamos uns com os outros, e por sentir que se fala muito pouco sobre adopção, ou quando se fala é sempre pelos piores motivos.

Por Joana Mendonça