0

A (des)graça de ter o terceiro filho


É certo e sabido que sobre a maternidade toda a gente tem sempre uma opinião, um “bitaite” a dar. Quanto a mim, lido bem com isso! A sério que lido! Nas redes sociais, vejo algumas publicações e desabafos de mulheres que, já no limite da sua paciência, gritam ao mundo o quanto estão indignadas com opiniões, partilhas de experiências de outros ou qualquer outra coisa que as tenha feito sentir diminuídas no seu papel de mães. É quase como se tivessem sofrido uma espécie de ataque pessoal ou como se o mundo quisesse competir com elas… o que as deixa melindradas e numa posição de contra-ataque. E meus caros… não se “metam” com uma mãe!
Adiante. Tenho em mim que dessas opiniões ou comentários vão existir sempre e acredito que muitos deles, apesar de despidos de filtro social, não carregam consigo maldade ou intuito de ferir. Outros serão certamente juízos de valor e aí a conversa já é outra. Todavia, cabe-nos a nós decidir aquilo que merece consideração e depende de nós a leitura que fazemos daquilo que ouvimos. Sim, depende de nós… e da importância que damos. Não acredito em fundamentalismos nisto da maternidade. Cada mãe sabe o que é o melhor para o seu filho e juntos saberão qual o melhor caminho. Não existem experiências iguais e não há receitas ou livros de instruções que nos valham. A experiência ou opinião de uma, por ser diferente, não invalida a da outra.
Quando eu e o T. decidimos, no início deste ano, aumentar a nossa família, sabíamos à partida que, quando surgisse a “boa nova”, não tardariam a chegar opiniões e comentários. Na verdade, não controlamos as opiniões dos outros mas podemos controlar ou escolher a forma como reagimos a cada uma delas. Resolvemos contar às pessoas mais próximas e a reacção foi, no mínimo,… dececionante. Obviamente, não estávamos à espera da aprovação ou validação de ninguém até porque é uma decisão nossa e somos nós que estamos no comando da nossa vida. Depois de digerir e filtrar todas as coisas que ouvi, escolhi “passar à frente” e viver plenamente esta fase maravilhosa. Eu, “mãe-coragem”, “mãe-louca”, “mãe-não-sabes-onde-te-vais-meter”, lamento não ter resposta para tudo o que ouvi, para as dúvidas e incertezas dos outros, que duvidaram à partida do nosso bom senso e discernimento para tomar decisões. Não fiquei nem estou zangada nem entrarei na tal espécie de contra-ataque. Na verdade, não tenho todas as respostas. Não sei ainda como vou pagar a faculdade… é um facto! E também não sei como vou fazer se algum deles ficar extremamente doente uma vez que só posso contar com o Serviço Nacional de Saúde e rezar para que funcione. Também não sei muito bem como vou gerir as manhãs e os fins de dia, uma vez que a minha estrutura familiar me “obriga” a fazê-lo sozinha na maior parte dos meus dias. Também não sei se terei condições para suportar financeiramente despesas com terapias, explicações ou apoios educativos, caso necessitem. E pensando bem… não quero pensar sobre essas questões agora, não obstante a pertinência das mesmas. Na incapacidade de prever o futuro, eu escolho viver o presente. Não vai ser fácil, mas não é assim que a vida ganha um sabor especial? Para já, contento-me com a prioridade nas filas de supermercado e com o contributo para o rejuvenescimento do país… qual cidadã exemplar na luta pelo interesse nacional.
Ter filhos é uma opção de vida (e para mim o expoente máximo da felicidade) tão válida como qualquer outra. Uma opção (in)consciente esta de criar pequenos devoradores do orçamento familiar, que nos faz traçar planos diferentes e redefinir prioridades.


Eu “mãe-louca” (que na linguagem dos “loucos” significa “mãe-feliz”) alimento-me disto… da coragem de ouvir o meu coração. E assim seguirei louca e feliz, no meio desta desgraça, embriagada de amor, pela graça de carregar outro ser dentro de mim.