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A adolescência e os perigos da Internet

Antigamente quando queríamos sociabilizar, pedíamos aos pais para ir brincar para a rua. Íamos bater a porta do amiguinho que morava no prédio ali ao lado e lá íamos nós a correr até ao jardim, onde outros miúdos já estavam em pleno jogo do rebenta ou da apanhada. Pouco antes do jantar começava o que nós chamávamos o “baile da gritaria”, mães, pais, avós iam aparecendo a berrar literalmente pelo nome dos filhos, outros viam apenas a cabeça da mãe a espreitar pela janela e a gritar “está na meeeesa”. Era ver-nos a dispersar como o bando de pardais da música, com aquela promessa de que no dia a seguir haveria mais. Naquele jardim, naquela praceta sabíamos que apesar de podermos dar asas às brincadeiras mais doidas, tínhamos de piar fino. Havia olhos por todo o lado e qualquer asneira que fizéssemos poderia ser vista por um vizinho, ou um amigo do primo do primo e que nos iria valer ao chegar a casa um valente puxão de orelhas ou uma palmada no rabiosque acompanhado de um raspanete. Também sabíamos que apesar de tudo ali estávamos numa suposta segurança. Que havia sítios que nos eram proibidos, que aquele canto do jardim era dos mais velhos. Que às vezes aparecia o maluco que olhava para as crianças mas que uma boa rajada de calhaus na pinha lhe seria suficiente para o afugentar dali pra fora, ou um adulto para lhe dar um cachaço para ele se pôr na alheta. Como é claro, ninguém iria dizer nada aos mais velhos, porque sabíamos que havia algo de malsão naquela personagem mas por medo de levarmos mais uma ralha dos nossos pais calávamos e guardávamos aquela espécie de segredo para nós (sobretudo o do ataque de pedras), e seguíamos com a nossa vidinha sem pensarmos muito no assunto. Os Anos 80 no seu esplendor.
Tenho uma filha de 16 anos, uma miúda porreirinha que estuda artes. Caracter muito dócil e uma observadora nata, de poucas palavras mas muita de análise. Desenha como já mais um dia desenharei. Nunca foi buscar amiguinhos para ir brincar para a praceta. Não sabe o que isso é. Nunca viu o maluco do jardim, nem nunca atirou pedras para o afugentar. A Marina tem internet. Com ela veio a sociabilização virtual. Não a de afectos e de cheiros. Nem de bancos de jardim, palco de tardes de converseta onde aguardávamos ansiosamente que passasse o rapaz que nos fazia bater o coração mais rápido. É, a minha miúda tem internet como todos os adolescentes em pleno ano 2017. Não é muito dada ao facebook, mas adora fóruns de partilha de desenhos e outros blogues sobre o assunto, completamente fora do meu entendimento, pois eu sou mais da música. É o mundo dela e adoro que assim seja.
Claro que antes de a deixar entrar neste mundo virtual lhe dei todos os conselhos possíveis e imagináveis: “Nunca te fies a quem está do outro lado”, “Cuidado, se vires que a conversa te deixa desconfortável, fala comigo. Chama a mãe, filha!” “Nunca dês o teu nome, nem morada ou número de telemóvel”. Enfim o rol de recomendações que todas as Mães dão quando sentem que estão face ao inevitável; deixá-los voar embora que ainda seja dentro de casa. Hoje de manhã deparei-me com a notícia do já tristemente conhecido jogo da “Baleia Azul”. Um jogo online que terá surgido na Rússia e tem sido responsabilizado pelo suicídio de vários jovens em vários países. Os alvos são sobretudo adolescentes que recebem uma mensagem nas redes sociais que é uma intimação a participar no jogo. Que se eles não participarem no jogo e não cumprirem as ordens algo mau vai acontecer, fazendo-lhes acreditar que sabem onde moram e que lhes vão matar os pais. Os participantes devem obedecer cegamente a “um curador” que os obriga a cumprirem tarefas como a mutilação. A última das 50 tarefas do jogo é geralmente o suicídio.

Ora bem, como abordar este assunto com a minha filha? Aliás, primeiro, como é que eu lido com esta notícia absurda mas que me deixa borrada de medo pela minha filha e me faz questionar se efectivamente a alertei sobre tudo. Caraças, 16 anos é uma idade tão mas tão tramada. Aqui não há calhaus para atirar á pinha. Aqui não há vizinhos para espreitar se os nossos filhos estão a fazer asneiras. Nem o amigo do primo do primo para fazer queixinhas de momentos menos gloriosos. Hoje em dia temos a porcaria da internet. Onde tudo é exposto, onde tudo é fácil de acesso sem grandes entraves. Onde sem querer, lhes damos as chaves para abrir todas a portas (e não me venham com as tretas do controle parental que isso contorna-se tão facilmente), as boas e as menos boas. Não a posso proibir de aceder à internet só porque eu tenho receio de que alguém se arme em parvo com ela. De coração nas mãos, apenas lhe pude dizer novamente para falar comigo, com o Pai da casa, os Avós ou alguém adulto em quem confia. O diálogo é a única coisa que me resta. Reforçar o risco de adicionar desconhecidos ou alguém que acha que conhece do fórum x. Explicar mais uma vez que nem tudo é o que parece. Quem me dera ter uma montanha de calhaus. Quem me dera os meus amigos da praceta para afugentar esses loucos. Quem me dera. Que raio de época em que vivemos nós. Talvez isto sirva para que falemos mais com os nossos filhos. Talvez, sim talvez, isto sirva a estarmos ainda mais atentos aos nossos adolescentes, tão frágeis e desamparados face à teia gigante de (des)informações que vão vendo diariamente. Dialogar é sem dúvida a arma de arremesso de todas as famílias.