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Esta é (também) a família que escolhi!



Uma amiga disse-me um dia: “Sabes, quando estou a passar por momentos desafiantes com as minhas três filhas, lembro-me muitas vezes de ti. Penso que EU escolhi ter três filhos, EU escolhi esta família, já sabia que ia ser assim. Foi opção minha. Mas tu não! Tu tinhas uma filha e de repente ficaste com quatro!”.
Entendo a minha amiga. Na verdade, o meu ideal era ter um “único” casamento para a vida, mas não foi assim. O meu ideal era dar à minha filha uma “única” família como eu tenho a sorte de ter, com pai e mãe juntos e enamorados, mas também não foi assim. O meu ideal era dar-lhe uma vida com maior “estabilidade” e sem tanta logística entre uma casa e outra, mas não aconteceu assim.

A vida correu de outro modo. O meu caminho foi outro. E apesar de idealmente não ser o que pretendia, a responsabilidade é minha também. Por isso sim, fui eu que escolhi.

Depois chega de novo o amor…
Simplesmente acontece e não acredito que escolhamos as pessoas que amamos! Mas ao optarmos por viver esse amor, existem escolhas todos os dias.

Nem sempre é fácil. Por vezes é mesmo duro: quando tenho saudades da rotina de mãe e filha que tínhamos há tantos anos; quando faço uma viagem de 600 km todos os fins-de-semana para que a minha filha possa estar com o pai; nos dias em que o silêncio só chega quando me deito (e ainda assim acordo a cada ruído durante a noite); quando o frigorífico que se encheu ontem já se esvaziou por completo; quando lavo e estendo uma máquina de roupa todos os dias; quando tenho que decorar datas de testes, reuniões, visitas de estudo e atividades a multiplicar por quatro; quando acabam de almoçar e já perguntam o que vai ser o jantar; quando a logística para ir a qualquer lado é enorme; quando temos que gerir conflitos, ciúmes, opiniões e vontades de seis pessoas; quando há desencontros de ideias educativas entre nós; quando todos os dias me pergunto: como devo agir, tendo em conta que sou mãe de uma mas não sou mãe de três?

Concordo com a minha amiga, no sentido em que não escolhi o passado do meu marido, tal como ele não escolheu o meu. São “mochilas” que trazemos connosco, com tudo o que isso representa de bom e de desafiante. É esse passado que nos tornou no que somos hoje.

Mas o que faço com o momento presente, é escolha minha.
É uma escolha minha aprender a viver cada momento sem me agarrar demasiado aos planos.
É uma escolha minha respeitar o ser individual de cada membro desta família.
É uma escolha minha promover uma comunicação aberta, honesta e respeitadora entre todos.
É uma escolha minha continuar a respeitar o pai da minha filha e a ficar feliz quando ela vê na madrasta uma “segunda mãe”.
É uma escolha minha respeitar a ex-mulher do meu marido e toda a sua família.
É uma escolha minha encarar os momentos desafiantes como aprendizagem.
É uma escolha minha comunicar os meus limites para manter o meu equilíbrio.
É uma escolha minha ser uma mãe (e madrasta) mais presente e consciente todos os dias.

Todos os momentos desafiantes são ultrapassados por momentos altamente gratificantes desta família alargada. Não há truques e segredos para as novas famílias modernas. Só o mesmo que para as famílias “tradicionais”: muito respeito e muito muito amor.


Por isso, esta é também a família que EU escolhi. Que escolho todos os dias. E para mim é uma família perfeita na sua imperfeição.