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Queridas MÃES.pt | Pergunta de uma Avó Materna 3 Visões do tema [Visão 3]


"Sou avó materna. Meu neto de 28 meses agride a minha filha. Já tentamos tudo. Ele arranha, puxa lhe o cabelo e morde sempre que alguma coisa que ele quer lhe e recusado. O que fazer?"

  4 Reflexões sobre meninos de 28 meses ( e de outras idades)

︎ Todo o comportamento (certo ou “errado”, agradável ou desagradável, apropriado ou inoportuno) visa a satisfação de alguma necessidade. Exprimir essa necessidade, ainda que de forma violenta, agressiva, rude, é sempre melhor do que não a exprimir. Há algo que ele está a querer comunicar, há algo de que ele precisa e que não está a receber.

︎ Todas as necessidades que temos (físicas, fisiológicas e emocionais) devem ser atendidas, merecem ser atendidas, sempre que possível.

︎ Por volta dos dois anos (às vezes antes, às vezes um pouco depois) os nossos bebés “desaparecem” - começam a ser menos passivos, a ter mais personalidade, a mostrar mais vontades e desejos, a procurar mais autonomia, poder de decisão, algum controlo sobre a própria vida e isso (pensem comigo a longo prazo) só pode ser bom! Somos nós que por vezes não estamos preparadas para o seu crescimento, para nos relacionarmos com estas pessoas em ponto pequenino mas extamente com o mesmo valor do que nós.

︎ Comportamentos que traduzem sentimentos de agressividade, de raiva, de muita frustração normalmente significam uma sensação interna de falta de poder, de autonomia. Esse sentimento de raiva, fúria, pode ter origens muito distantes da situação que o está a criar, pode ter origem na escola e não em casa, na interação com os pares e não com a mãe.


6 Reflexões para  mães  & avós de meninos de 28 meses (e  de todos os outros)

❤︎ Atender o meu filho nas suas necessidades, perceber o que ele me está a pedir, a comunicar, pode ter muito de detective e ser muito pouco linear. Porque se instala uma birra violenta acerca do chocolate que não lhe comprei no supermercado, não quer dizer que a sua necessidade seja “ter/comer o chocolate do supermercado”. Ser mãe- avó - detetive faz com que olhemos para lá do comportamento, tentemos descobrir o que se passa.

❤︎ Por mais estranho que, à partida, pareça, eu posso atende-lo nas suas necessidades e colocar os limites que defendo para a sua saúde, bem estar, integridade física e emocional. Voltando ao exemplo do chocolate: se eu acredito que é melhor para ele não lhe dar o chocolate, eu sustento o meu limite, usando uma linguagem terna e firme, mostrando que compreendo o seu desejo, mostrando-me interessada no seu desejo e nele, não retirando amor e paciência, fortalecendo a comunicação e a relação.

❤︎ Eu coloco os meus limites assegurando que não permito que me batam, que me agridam. Eu uso a minha força para conter, para parar, sem retaliar, sem ameaçar, sem castigar e sem magoar - “Eu não permito que me batam, eu não deixo que me magoem” - e mantenho a minha disponibilidade afetiva, a minha compreensão e compaixão pelo que ele está a passar (lembro-me de que algo dentro dele não está bem e é isso que ele está a comunicar) - “Eu compreendo o que estás sentir. Também não gosto quando não faço / tenho o que quero. Estás a sentir-te mesmo furioso porque querias muito aquele chocolate. Há algo que eu possa oferecer-te em vez do chocolate? Tens fome?”.

❤︎ Onde é que eu, como mãe, avó, lhe posso dar mais autonomia, liberdade de escolha? Como posso fazer com que se sinta orgulhoso de si próprio, respeitado, valorizado? Que situações do dia-a-dia posso utilizar para colmatar estas necessidades que, provavelmente, toda a raiva e violência estão a exprimir, a cada conflito? Posso deixa-lo escolher a roupa? Agradecer-lhe uma pequena ajuda? Faze-lo sentir que pode ter algum grau de liberdade nos programas familiares? Na escolha da hora do banho? Colocar os seus desenhos em molduras, na sala (atenção aos elogios, a evitar! Reconhecer é muito diferente de elogiar!), pedir-lhe opinião sobre o que fazer para o jantar? Respeitar a quantidade de comida que ele quer comer? Fora do conflito se resolve o conflito (porque extinguindo o mal estar geral que o vai provocar ele simplesmente não acontece) e dentro do conflito lembrar-me sempre de reconhecer e empatizar com as suas necessidades e desejos, explicar os meus limites, necessidades e razões (no caso do chocolate, podemos dizer, sem fugir à verdade, acho eu: “Também fico triste de não te poder dar o chocolate e ver-te triste. Ao mesmo tempo não estaria a cuidar de ti e da tua saúde como acho ser correto. É porque gosto de ti e da tua barrigudinha que me parece melhor não comeres agora o chocolate”. Lembrar-me ainda de negociar, de propor uma alternativa, de chegar a um entendimento, com confiança e paciência.

❤︎ Eu aproveito cada momento de relacionamento com os outros - o meu marido, a minha mãe, a minha filha, a senhora da loja, o condutor do outro automóvel - para lhe mostrar como podemos resolver conflitos sem precisar de ser violentos, agressivos (porque a agressividade física não é a única forma de ser violento). Eu fomento em mim própria, um modo de estar pacífico, tranquilo, amoroso, tolerante. É neste exemplo que ele se vai basear, mal tenha estrutura cerebral para isso.

❤︎Quer isto dizer que ele vai passar a abrir mão das suas vontades, desejos, de firmar a sua integridade (seja recusa a tomar banho porque não vê o sentido, birra para ir dormir porque quer continuar a brincar, etc)? Espero que não! É sinal de que temos um rapazinho íntegro e com personalidade, que não cumpre ordens e quer ser visto e respeitado. Poderá é não ser tão violento, poderá tornar-se mais compreensivo com o “não”, poderá passar a colaborar mais - e é, penso eu, deste equilíbrio que nascem relações verdadeiramente íntimas e duradouras entre mães, avós e filhos. É neste equilibro que realmente educamos e que, também nós, crescemos.